Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Guarujá tem praia cheia no feriado; fiscalização com cavalaria da PM desperta curiosidade

Mesmo com proibição, muita gente ficou nas areias da praia da Enseada; policiais fazem parte do reforço anunciado pelo governador João Doria aos municípios paulistas durante o feriado de 7 de setembro

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 13h39

Isolada em um trecho da Praia da Enseada, no Guarujá, a publicitária Andrea Avedissiam, de 45 anos, demarcou um perímetro invisível ao redor da cadeira de praia onde estava sentada para tomar sol enquanto lia O Morro dos Ventos Uivantes. Longe dos demais banhistas, que também permaneciam na areia com guarda-sóis mesmo diante da proibição, ela disse se sentir segura. A poucos metros dali, na praça Horácio Lafer, 30 cavalos da Polícia Militar de São Paulo se preparavam para começar a ação de apoio à fiscalização local.

Essas três cenas -- de mais aglomeração, pouco distanciamento e forte vigilância da força de segurança -- predominaram na faixa de areia na manhã deste sábado, 5, primeiro dia do feriado prolongado de 7 de setembro. Tanto quem foi ao local pela primeira vez quanto quem já é veterano ficou impressionado com o amplo movimento de pessoas, que começou a se intensificar depois do meio do ano, segundo conta Priscila Freire, de 41 anos.

"Até junho, julho estava bem abandonado. Em agosto aumentou bastante e no fim de semana passado piorou. O policiamento é bem eficaz, quem burla (as regras), os policiais no triciclo espantam, mas agora tem muita gente aqui", diz ela. Priscila, que tem revezado a morada entre a capital paulista e a casa que possui no município litorâneo, foi atraída com a família pelos cavalos do Regimento de Cavalaria 9 de Julho da Polícia Militar do Estado, que tinham chegado por volta das 10h à cidade. "Nunca tinha visto, é a primeira vez."

Os animais são utilizados pelos policiais militares para atuar no apoio à fiscalização local para evitar aglomeração nas praias. A mobilização faz parte do reforço anunciado esta semana pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), aos municípios litorâneos e de estâncias turísticas. A previsão é disponibilizar 20 mil agentes a essas localidades ao longo dos dias de descanso.

"A gente vai ficar em apoio à Guarda Civil Metropolitana caso tenha algum problema com aglomeração de pessoas. Mas, via de regra, somos os últimos  a ser acionados", explicou o tenente Porcina. A operação foi realizada neste sábado e continua até terça-feira, 8, das 10h às 16h. O plano é que os policiais fiquem em pontos estratégicos da orla, ajudando na conscientização contra o novo coronavírus.

Mas enquanto os cavalos não saíam para iniciar o expediente, o que ocorreu às 11h, pequenos grupos de duas a cinco pessoas se aproximavam dos animais com curiosidade. Crianças, principalmente, se encantavam ao chegar perto. O pequeno Mateus, de 5 anos, andava de bicicleta na companhia do pai, Carlos Alberto de Almeida Soares, de 62 anos, quando parou para admirar os equinos. "Ele é fascinado pela Polícia Militar", conta o pai.

O advogado, que mora em Paulínia e vai ao Guarujá com frequência, também relata que houve aumento no número de pessoas na praia nas últimas semanas. "Mas estou admirado pelo policiamento, está bem guarnecido." Logo ele ia para Ubatuba, onde afirma que a movimentação é menor.

Movimentação menor em Pitangueiras

Diferentemente da Enseada, o distanciamento social entre grupos era maior na praia de Pitangueiras, mas foi possível ver grupos de cerca de dez pessoas juntas ao redor de cangas estendidas na areia ou sentadas em cadeiras de praia. Poucos guarda-sóis permaneciam abertos enquanto agentes da fiscalização não eram vistos. Em um trecho da entrada da praia, uma espécie de estande longo com cinco pias e três dispensers de sabonete líquido estavam à disposição dos banhistas no calçadão, por onde a maioria dos pedestres circulava de máscara.

Para manter o distanciamento, algumas pessoas até delimitaram uma área com marcas na areia. Foi o que fez a família da vendedora Estela Jorge, de 50 anos, que mora em Caieiras e estava indo à praia pela primeira vez desde março. Preocupados com a possível aglomeração, eles mudaram a opção de estadia também. “Minha filha não queria vir, mas estamos em apartamento, onde os moradores e funcionários usam máscaras. Antes, ficávamos em hotel, que eu acho que é mais movimentado”, disse. Seguindo alguns cuidados, ela diz que fica mais tranquila. “A cidade precisa de turistas e a gente precisa de ar puro.”

Claudia Gomes, de 43 anos, sabe bem da necessidades dos turistas. Moradora do Guarujá, ela trabalha em Pitangueiras vendendo roupas de praia, chapéus e brinquedos. “Está complicado, as vendas caíram 60%, e a gente voltou a trabalhar há pouco tempo”, relata. Ela também mantém as recomendações de higienização, passando álcool em gel nas mãos e no carrinho a todo tempo e evitando que os clientes peguem nas peças à venda. O trabalho dos ambulantes é permitido. 

Já por volta de 15h30, com o tempo fechado e temperatura amena, a praia de Guaiuba tinha menos movimento. Na faixa de areia estreita, os banhistas respeitavam o distanciamento social, mas vez ou outra alguém era advertido por usar cadeira de praia. “Não pode e pelo decreto não pode nem ficar parado aqui na praia, mas a gente não tem como evitar e atua mais na conscientização, no distanciamento. Sem cadeiras e guarda-sóis, a gente espera que as pessoas passem menos tempo na praia por causa do desconforto”, disse uma guarda civil municipal.

Em todas as praias, os banhistas ficam mais aglutinados na região central da faixa de areia enquanto as pontas concentram menos pessoas. Faz parte da estratégia de distanciamento permanecer ao fundo da praia, próximo aos paredões formados pela calçada mais alta. A expectativa é de que o movimento aumente nos próximos dias de feriado se o tempo estiver bom, com sol e céu aberto.

Regras são pouco respeitadas

Os esforços para alertar turistas e moradores acerca das regras nas praias do Guarujá contam com distribuição de panfletos aos motoristas que chegam à cidade e se dirigem às faixas de areia e mar. O material, distribuído pela Prefeitura do município, avisa que são permitidas atividades esportivas sem contato físico, a exemplo de caminhadas, corridas, futevôlei, surfe e caiaque. Para essas atividades, o uso de máscara é obrigatório. Já os esportes coletivos estão proibidos, bem como a permanência de cadeiras de praia, guarda-sóis, tendas, esteiras, brinquedos infantis, coolers e similares. 

"Não pode ficar parado na areia, com cadeira, sentado. Pode circular pela praia, fazer caminhada", disse um guarda municipal. No entanto, a reportagem do Estadão observou poucas recomendações sendo seguidas. Grupos pequenos e grandes tomavam banho de mar ou se juntavam em cima de toalhas para tomar sol. Guarda-sóis estavam abertos, sob os quais mais pessoas se reuniam equipadas com caixas de isopor ou coolers para preservar uma bebida gelada. Difícil era ver alguém de máscara. Item essencial para evitar a contaminação pelo novo coronavírus, mas, aparentemente, não na praia.

"Eu ando de máscara quando estou na calçada, mas aqui para tomar sol fico sem", disse Andrea, que mora na capital paulista e aproveitou a facilidade do home office para descer a serra na quinta-feira à noite e evitar trânsito. Ela vai ao Guarujá com frequência e estava ciente das regras para circular na praia da Enseada. "Agora está bem mais cheio. Mesmo quando duas ou mais pessoas estão juntas em cadeiras, os guardas passam, mas não falam nada, só se tiver com guarda-sol", relata.

Quem compartilha dessa observação é o guarda de trânsito Rodrigo Vitor Martins, de 34 anos, que foi à praia do Guarujá pela primeira vez. Ele conta que os guarda-sóis são fechados quando agentes de segurança passam em triciclos, mas logo são reabertos após eles se perderem de vista. Sobre a experiência inédita em meio à pandemia, ele diz que "é chato". "É um pouco chato porque tem de ficar todo mundo longe, não tem muitos quiosques, toda hora vem guarda municipal", diz.

Outra caloura na praia da Enseada é Helen Cristina, de 21 anos, que estava acompanhada também do marido e dos dois filhos. Sob a sombra de um coqueiro, ela cuidava do caçula, Gael, de 10 meses, também estreante em ambiente praiano. Ver as pequenas aglomerações a preocupou. "Tem de tomar cuidado, tem muita gente aglomerada, sem máscara. As pessoas não estão respeitando", disse ela, que mora em Itu.

Em texto, a Prefeitura do Guarujá afirma que 343 profissionais do município, junto com 130 policiais militares estão envolvidos na ação de fiscalização. E que os fiscais estão atuando, ao lado da Guarda Civil Metropolitana, nas abordagens de orientação a quem estiver agindo em inconformidade com os protocolos sanitários. 

Praias voltaram a ficar cheias no Rio de Janeiro

No Rio, no início da tarde deste sábado, as areias de Copacabana, na zona sul, não estavam tão cheias quanto no fim de semana passado, mas a movimentação era intensa na orla. Os quiosques, cujas mesas ficam próximas umas das outras, aparentavam estar num dia normal, pré-pandemia. 

Tem chamado atenção, na areia, a proliferação de barracas de sol, cujo aluguel ainda está proibido. Os banhistas têm levado suas próprias proteções para permanecer mais tempo na praia - o que também é proibido. Apenas o banho de mar e a realização de atividades físicas estão permitidos. 

As ciclovias da praia também têm ficado movimentadas, inclusive nos dias de semana. Apesar de a maioria dos corredores e ciclistas usarem máscara, muitos a dispensam ou usam o artefato de forma equivocada - pendurada no queixo, por exemplo. 

Enquanto isso, o Rio também passou a registrar mais aglomerações noturnas, como as filmadas na noite desta sexta-feira no Leblon, bairro com o metro quadrado mais caro da cidade. Os bares da Rua Dias Ferreira, tradicional reduto boêmio da elite carioca, voltaram a ficar lotados. 

O trânsito em toda a cidade também tem piorado. Voltou a ser comum o habitual congestionamento em vias como a Avenida Brasil. Além disso, o transporte público, especialmente os ônibus do BRT, são palco de aglomerações diárias. 

O Rio já registrou, até este sábado, 16,4 mil mortes pela covid-19 e um total de 232,4 mil casos. / COLABOROU CAIO SARTORI

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