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Guarujá: medo e vergonha após o crime

Linchadores foram ao enterro, afirma testemunha; sobrinha de mulher assassinada conta que a filha da vítima vive em silêncio

Paulo Saldaña, Enviado especial, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2014 | 02h14

GUARUJÁ - O linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, é o mais desagradável assunto do qual os moradores do bairro Morrinhos, no Guarujá, não têm como fugir. Digerir uma cena de espancamento na porta de casa não é fácil em nenhuma circunstância, muito menos entender como tantos parentes, amigos e até mesmo crianças participaram da morte de uma vizinha inocente, mãe de duas filhas. Agora, a comunidade transformada tenta seguir a vida.

"A cidade está estranha", diz em voz baixa a cabeleireira Maria Aparecida Oliveira, de 38 anos, dona de um salão a poucos metros de onde a agressão começou, no dia 3, um sábado. "Ficou uma imagem muito feia do bairro, tenho até vergonha de dizer onde moro", diz ela, que sempre achou o lugar sossegado. Localidade pobre do Guarujá, com cerca de 20 mil habitantes, Morrinhos tem parte das ruas de terra e alguns prédios de habitação popular.

O clima entre a maioria dos moradores é um misto de medo, revolta e, para alguns, vergonha. Fabiane foi vítima de uma multidão que a agrediu, filmou e tirou fotos. Ela havia sido confundida com uma sequestradora de crianças - que, segundo a polícia, nem existe. Um fim trágico de um boato amplificado pelo Facebook.

Poucos moradores que presenciaram ou participaram do espancamento se dispõem a falar abertamente sobre o assunto. Há medo de represálias de criminosos. A polícia também procura responsáveis, o que colabora com o silêncio. "É hipócrita quem diz que não viu nada. No enterro dela, havia muita gente que antes estava batendo e gritando 'mata, mata!'", diz uma comerciante, que pediu anonimato. "Eu não durmo direito desde aquele dia."

A chance de encontrar pelas ruas da comunidade conhecidos que participaram do linchamento de sua tia tem feito a dona de casa Andressa Oliveira Gino das Neves, de 23 anos, evitar sair de casa - principalmente ir aos lotes 3 e 4 do bairro, onde os ataques ocorreram. "Me revolta ouvir que a culpa foi da internet. Foi culpa de todo mundo, de quem bateu, gritou, presenciou", afirma. "E se fosse uma criminosa, faria diferença?"

Pelos vídeos, Andressa já reconheceu três pessoas, informação repassada a seu advogado. Mãe de duas filhas, ela tem cuidado das duas crianças de Fabiane - uma de 1 ano e outra de 12. "A mais velha chorou, chorou, mas agora está quietinha no canto dela", conta.

Para a vendedora Maria de Lourdes, de 49 anos, a violência e a dinâmica do ataque lembraram cenas bíblicas. "Eu vi de longe a multidão, ela foi apedrejada como Maria Madalena, morreu com as mãos amarradas", diz. "E o povo em fúria, endemoniado, falando que tinham achado brinquedo na bolsa, peruca, tudo mentira. Muita gente gritou, mas ninguém impediu."

Segundo familiares e amigos, Fabiane voltava da Igreja São João Batista, ali em Morrinhos, quando foi confundida com a suposta sequestradora. O padre Felipe Gonzalez, de 30 anos, conhecia a dona de casa. "Agora é buscar reconciliação, até mesmo com quem participou. Sem ser omissos, precisamos fomentar ainda mais a misericórdia na comunidade."

Crianças. Na Escola Municipal Professora Maria Aparecida de Araujo, onde Fabiane completou o ensino fundamental em 1996 em curso supletivo, a direção passou nas salas para falar do assunto. "As crianças só falavam disso, muitas tinham visto a cena. Precisamos fazer uma reflexão sobre justiça com as próprias mãos, o papel da internet e das redes sociais", diz a vice-diretora, Clara Miranda.

A escola tem mais de mil alunos do segundo ciclo do ensino fundamental (6.º ao 9.º ano). "Não sei se dá para reverter, mas temos de refletir e agir."

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