JF Diorio/AE
JF Diorio/AE

Grupo de meninas faz arrastões na zona sul

PM diz tê-las detido em flagrante 15 vezes; como afirmam ser menores de 12 anos, vão para abrigos, fogem e voltam a agir

Luísa Alcalde / JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2011 | 00h00

Um bando formado por pelo menos 15 crianças e adolescentes, a maioria meninas, promove arrastões a pedestres e estudantes e aterroriza o comércio da Vila Mariana, na zona sul da capital paulista.

Elas se reúnem na parte externa da Estação Ana Rosa da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô), de onde saem em grupo, atacando lojas, além de roubar e ameaçar pedestres na altura do número 700 da Avenida Domingos de Morais, onde há grande concentração de estabelecimentos comerciais.

Na reunião mais recente do Conselho de Segurança (Conseg) da Vila Mariana, ocorrida há uma semana, o capitão Flávio Baptista, comandante da 2.ª Companhia do 12.º Batalhão da Polícia Militar de São Paulo, disse que o grupo já foi detido em flagrante pelo menos 15 vezes. De acordo com Douglas Melhem Junior, presidente do Conseg, essas detenções ocorreram desde outubro. "Só na semana passada, elas foram detidas três vezes."

Armas. De acordo com o capitão, as meninas simulam portar armas embaixo das roupas, embora nenhum armamento tenha sido encontrado até agora. "Estamos fazendo o que é legal, mas como elas têm 11, no máximo 12 anos, são encaminhadas ao Conselho Tutelar, onde é facultada a vontade ou não de permanecerem nos abrigos. Dali a meia hora, estão nas ruas aprontando novamente."

Procurado pela reportagem, o Comando de Policiamento Metropolitano não respondeu nem e-mail nem telefonemas. O delegado assistente do 36.º Distrito Policial (Paraíso), Sugui Kendi, afirmou que a delegacia só pode encaminhar para a Fundação Casa adolescentes que tenham cometido ato infracional com 12 anos completos. "Abaixo dessa idade é criança e será encaminhada para o Conselho Tutelar."

Casos. "De um mês para cá piorou muito. Elas voltaram com tudo. Têm ocorrido de 15 a 20 arrastões por semana", afirma Michel da Cosa Massi, segurança da Galeria Paraíso, que abriga dezenas de estabelecimentos comerciais. No sábado, o gerente da loja de roupas Simple Store, Luiz Eduardo Ferreira, localizada no número 725 da Domingos de Morais, viu sete das meninas entrarem no local. "Elas iam saindo com uma calça quando uma funcionária puxou a roupa da mão de uma delas", conta Ferreira.

O Hotel Moraes foi obrigado a fechar uma das entradas porque as meninas invadiam o local e saíam levando roupas, lençóis, travesseiros, tudo o que encontravam pela frente, segundo a recepcionista Lucila Santos Bezerra. As garotas são descritas pelos comerciantes como extremamente agressivas e desafiadoras. "Em uma das prisões, elas arranharam um policial e ameaçaram tirar a roupa na delegacia para simular constrangimento", conta o presidente do Conseg local, Douglas Melhem Junior.

A comerciante Adriana Augusta Fidalgo Santos, dona da loja de roupas infantis Sapo Perereca, confirma os ataques. "Na segunda-feira da semana passada, saí correndo atrás de uma delas que havia pegado um pijama da minha prateleira. Ela tentou me morder várias vezes e me chutava", conta.

Na região não há comércio que não tenha sido invadido e sofrido arrastão. Relatos de furtos e roubos são frequentes. A gerente da Raclaudia Modas disse que os lojistas avisam uns aos outros da presença do bando. "Não pode deixar entrar na loja, senão elas barbarizam. Cada uma vai para um lado e pegam o que podem guardar dentro da roupa. São rápidas e xingam a gente, nos ameaçam."

Impunidade. Os menores de idade que têm praticado atos infracionais ficam impunes sobretudo porque tanto as Polícias Militar e Civil quanto o Conselho Tutelar não sabem, de forma documentada, a idade dos que estão aterrorizando o bairro. Entre as 15 garotas, as conselheiras acreditam que quatro já tenham mais de 12 anos. "São pequenas apenas de estatura porque não têm desenvolvimento normal", explica uma conselheira, que pediu para não ser identificada.

"Não temos como fazer esse tipo de averiguação. Quem tem de fazer isso é o Conselho Tutelar", afirma o delegado Kendi. Já as conselheiras dizem não ter como atuar em casos de ato infracional e ressaltam que identificar as crianças e localizar os responsáveis é dever da autoridade policial - quando elas são detidas em flagrante e levadas ao distrito.

DUAS PERGUNTAS PARA...

Thales Cézar de Oliveira, promotor da Infância e Juventude

1. O que a polícia deve fazer quando não há como provar a idade dos infratores que estão atuando principalmente na zona sul?

O correto é a polícia realizar o auto de prisão em flagrante na delegacia e encaminhar os menores para o Fórum da Infância e Juventude (o Conselho Tutelar é a autoridade para atender e aplicar medidas de proteção ao menor de idade autor de ato infracional).

2. E em casos excepcionais, quando não há documentos que permitam definir a idade?

Pode ser exigido laudo para identificar a idade aproximada por meio de raio X do pulso.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.