Grupo de extermínio é condenado a 18 anos e oito meses de prisão

Ex-policiais fariam parte do grupo 'Highlanders', que cortava a cabeça e mãos de suas vítimas

Bruno Lupion, do estadão.com.br,

30 de julho de 2010 | 02h30

SÃO PAULO - Os ex-policiais militares Anderson dos Santos Salles, Joaquim Aleixo Neto, Moisés Alves dos Santos e Rodolfo da Silva Vieira foram condenados na madrugada desta sexta-feira, 30, a 18 anos e oito meses de prisão pela morte de Antônio Carlos Silva Alves, portador de deficiência mental, em outubro de 2008. Eles integravam o 37º Batalhão da Polícia Militar de São Paulo e fariam parte do grupo de extermínio conhecido por "Highlanders", que decapitava suas vítimas.

 

O júri popular, composto por cinco homens e duas mulheres, acolheu integralmente os argumentos da acusação, após mais de 16 horas de julgamento no Fórum de Itapecerica da Serra, região metropolitana de São Paulo. Na época do crime, Alves tinha 31 anos e foi encontrado com a cabeça decapitada, as mãos decepadas e um corte na barriga em forma de cruz. Celso Vendramini, advogado dos ex-policiais, disse que vai recorrer.

 

Alves foi visto pela última vez em 9 de outubro de 2008, numa viatura do 37º Batalhão, pela irmã Vânia Lúcia da Silva de Santana Alves. Enterrado como indigente, a família só conseguiu reconhecê-lo durante as investigações graças a uma tatuagem de teia de aranha no braço esquerdo.

 

Investigação

 

O caso veio à tona com os assassinatos de Roberth Sandro Campos Gomes, de 19 anos, o Maranhão, e Roberto Aparecido Ferreira, de 20, o Bebê, ambos decapitados em 30 de maio de 2008. Os corpos foram encontrados em um terreno em Itapecerica da Serra.

 

A Polícia Civil indiciou 14 PMs pela morte dos três decapitados. Segundo as investigações, o grupo de extermínio obrigava menores infratores a roubar para a organização e quem desobedecia era morto. Todos ficaram detidos no Presídio Militar Romão Gomes, zona norte da capital. Nove continuam presos.

 

Sentença

 

Ao ler a sentença, às 2h15, o juiz Antonio Augusto Galvão de França Hristov afirmou que os ex-policiais "deveriam ter sido os primeiros a proteger a vítima, o que não ocorreu" e lembrou que o crime causou "grande repercussão social e comprometimento da imagem da digna Polícia Militar". Para Hristov, houve abuso de autoridade e violação do dever inerente ao cargo. Os quatro foram condenados por homicídio duplamente qualificado e encaminhados ao presídio militar Romão Gomes.

 

"Ainda dá para confiar na Justiça", disse a mãe da vítima, Maria da Conceição da Silva Alves, 50 anos, após ouvir a sentença. "O Carlinhos não conhecia os PMs que o mataram, estava no lugar errado, na hora errada. Agora eles vão pagar pelo que fizeram", afirmou. Na quinta-feira, 29, data do início do julgamento, a irmã caçula da vítima deu à luz e batizou o menino de Carlos.

 

Maria da Conceição não deixou de criticar o trabalho da Corregedoria da Polícia Militar. "Se dependesse deles, a condenação não teria acontecido. Tive sorte de encontrar pelo meu caminho uma boa equipe da Polícia Civil", disse.

 

Recurso

 

Vendramini, advogado dos ex-policiais, disse acreditar na inocência de seus clientes e pedirá a anulação do júri. Ele criticou a atuação do promotor, que teria mostrado uma camiseta com a foto de Carlos e a inscrição "Deficiente mental é morto pela Força Tática", mesmo após proibição expressa do juiz. "O promotor cometeu um golpe baixo para causar comoção entre os jurados", afirmou.

 

Os quatro ex-policiais não estavam presentes no momento em que a sentença foi lida. Segundo Vendramini, isso foi feito para preservá-los, pois alguns deles teriam manifestado o desejo de cometer suicídio. Joaquim Aleixo Neto, um dos condenados, tinha 28 anos de polícia.

 

O grupo de extermínio ficou conhecido como "Highlanders" em alusão ao filme estrelado por Christopher Lambert e Sean Connery na década de 80, no qual os guerreiros cortavam a cabeça de seus inimigos. Segundo a polícia, a cabeça e as mãos das vítimas eram cortadas para dificultar a identificação.

 

(Com Elvis Pereira, do Jornal da Tarde)

 

Texto atualizado às 5h55.

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