Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Grupo de cardeais defende ordenação de diaconisas

Proposta apresentada no Sínodo sobre a Família enfrenta resistência; religiosas poderiam exercer funções pastorais

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2015 | 19h20

Atualizado às 19h48

SÃO PAULO - O cardeal Paul-André Durocher, arcebispo de Gatineau, no Canadá, surpreendeu o plenário do Sínodo sobre a Família, no Vaticano, com a proposta de criação do diaconato feminino, que permitiria às mulheres proclamar o Evangelho, fazer a homilia, celebrar batismos, abençoar casamentos, administrar unção dos enfermos e presidir cerimônias de funerais. Hoje, essas funções são exercidas pelos diáconos permanentes, em geral homens casados.

A proposta poderá ser formalizada no documento final do Sínodo, que se encerrará no próximo domingo, após três semanas de discussão sobre os principais desafios que a família apresenta no século 21.

Mesmo que não venha a ser aprovado, o pedido de d. Durocher abre caminho para exame posterior de questão tabu na história da Igreja. Parece certo que tenha havido diaconisas no cristianismo primitivo, como deixa a entender o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos, capítulo 16, mas a restauração do diaconato feminino encontra resistência entre conservadores.

O cardeal brasileiro d. João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, disse que nada impede que a sugestão seja incluída no relatório do encontro. O Sínodo não tem poder deliberativo, mas o objetivo de encaminhar propostas ao papa Francisco, a quem cabe dar a palavra final. 

O bispo de Jales, no interior paulista, d. Demétrio Valentini, vê a proposta com simpatia, mas teme que a sugestão do diaconato feminino não avance nas discussões e ainda atravanque outras questões, como o acesso aos sacramentos dos casados em segunda união. O fato, porém, de o diaconato feminino ter sido lembrado abre portas para o futuro, observou.

A principal objeção à aprovação de diaconisas é que, assim como não podem ser ordenadas para o ministério sacerdotal, as mulheres não poderiam receber o diaconato, que também é uma ordem. Esse obstáculo, argumentam alguns teólogos, poderia ser removido com uma sugestão feita pelo cardeal alemão Walter Kasper, que propôs a concessão de uma bênção, e não a ordenação, para autorizar as diaconisas a exercer funções pastorais, incluindo a direção de paróquias.

Falta de padres. Além de valorizar o papel da mulher na Igreja, o diaconato feminino ajudaria a resolver o problema de falta de padres. “Em algumas dioceses brasileiras, já há centenas de mulheres que exercem todas essas funções permitidas aos diáconos permanentes desde o Concílio Vaticano II, celebrado há 50 anos”, disse o padre José Oscar Beozzo, teólogo, historiador e coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep). São freiras e leigas, casadas ou não, que se dedicam à pastoral, principalmente nos bairros de periferia e na zona rural.

Se o diaconato feminino fosse aprovado, Liz Marques, casada e mãe de dois filhos, seria candidata. “Claro que conforme as circunstâncias, pois eu não entraria se fossem admitidas só mulheres solteiras”, disse ela, ao ouvir falar da proposta apresentada no Sínodo. Colaboradora, com o marido, da Comunidade Moisés Libertador, criada por d. Luciano Mendes de Almeida e pelo cardeal d. Paulo Evaristo Arns, na zona leste, Liz já exerce quase todas as funções reservadas aos diáconos. “Acho que as diaconisas deveriam ser ordenadas, como os homens, para fazer parte da estrutura da Igreja, e não receber apenas uma bênção”, disse.

Não faltariam candidatas à função: cerca de 40 mil comunidades eclesiais de base (CEBs), de um total de 100 mil no Brasil, são dirigidas por mulheres e centenas delas aceitariam assumir o diaconato. Para Liz, o mais importante nesse quadro é as mulheres assumirem na Igreja um papel de destaque e de autoridade, até agora exercido por homens – bispos, padres e diáconos.

D. Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau, em Santa Catarina, e ex-bispo auxiliar de São Paulo, gostaria que as mulheres assumissem postos de decisão na Cúria Romana, por exemplo na Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e nas Sociedades de Vida Apostólica, onde as religiosas são a grande maioria. “Por que não nomear uma prefeita ao lado do prefeito para essa congregação?”

Recasados. Outro assunto que ocupou boa parte dos debates nas duas primeiras semanas do Sínodo sobre a Família e que agora exigirá uma definição a ser entregue ao papa Francisco é o acesso aos sacramentos dos casais divorciados que tornaram a se casar.

“Há muitos casais católicos que não estão regularmente casados na Igreja, não se trata só dos divorciados recasados. E há a questão do acesso dessas pessoas à comunhão e à confissão”, advertiu em entrevista no Vaticano o cardeal d. Odilo Scherer.

Ele classificou a situação como “angustiante” e revelou que, embora os padres sinodais concordem neste ponto, “ainda está difícil de se ver solução que tenha aceitação da maioria”.

“Espero muito que o Espírito Santo ilumine os padres sinodais para que possam, de fato, dar um apoio ao papa naquilo que ele vai decidir sobre as grandes questões, seja da pastoral familiar, seja das questões mais específicas de dificuldades, por exemplo, sobretudo o que mais se foca, a situação dos casais em segunda união. Espero, sem dúvida nenhuma, muito disto”, disse o cardeal d. Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e prefeito emérito da Congregação para o Clero. “Apoio plenamente que se encontre um caminho penitencial para os casais em segunda união, para que possam participar mais dos sacramentos da Igreja.”

Nessa hipótese, aos casais em segunda união seriam admitidos os sacramentos, a critério do bispo de sua diocese. Seria um meio-termo entre dois extremos – liberar tudo ou deixar tudo como está.

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