TV Estadão | 28.08.2015
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Greve geral no Brás

Bairro foi palco de dois episódios definitivos no movimento de 1917

Luiz Felipe Barbiéri, O Estado de S. Paulo

26 de agosto de 2015 | 17h14

Chegar em casa depois de oito horas de trabalho e cuidar da família pode parecer comum hoje em dia. Mas nem sempre foi assim. Na verdade, no início do século XX, quando o trabalho infantil era disseminado pelas fábricas de São Paulo, havia uma grande chance de seus filhos trabalharem no mesmo local que você.

Foi assim que, num cenário de exploração do trabalho e de deterioração econômica, o Brás se tornou um dos palcos da primeira greve geral de São Paulo, em 1917. Reduto de muitos imigrantes, que desembarcavam para trabalhar na lavoura ou ficavam na cidade e iam para as fábricas paulistanas, o bairro concentrou parte das manifestações do operariado. De certa forma, ela começou e terminou no Brás.

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A greve. Ainda em junho de 1917, alguns trabalhadores de empresas têxteis de São Paulo resolveram cruzar os braços.  Tudo começou no Cotonifício Rodolfo Crespi, na Mooca. Cerca de 400 operários pediam aumentos entre 10% e 15%, além do fim da carga horária noturna de trabalho. Nada feito.

Os imigrantes italianos, em especial, queriam a supressão de um tributo que, no caso do Cotonifício Crespi, era descontado diretamente do seu salário: a contribuição pró-pátria. Esse imposto, uma espécie de doação obrigatória de parte do salário, havia sido criado pela burguesia imigrante com o intuito de arrecadar recursos e mandá-los à Itália, em razão do esforço bélico pela Primeira Guerra Mundial.

Mas o que começou como um movimento localizado ganhou contornos dramáticos no mês seguinte. No dia 9 de julho, o imigrante espanhol, José Martinez, de 21 anos, foi baleado no estômago, enquanto protestava em frente à fábrica Mariângela, no Brás. Ele morreu durante a madrugada, na Santa Casa. No dia seguinte, uma multidão atravessou a cidade em silêncio, carregando o caixão do espanhol até o cemitério do Araçá, onde foi sepultado. Foi o estopim para a greve geral de 1917, que contou com a adesão de mais de 70 mil trabalhadores e espalhou barricadas pela cidade de São Paulo.

Entre as reivindicações estavam o fim do trabalho para menores de 14 anos, melhores condições de trabalho nas fábricas, jornada de oito horas e a abolição da carga horária noturna para mulheres e crianças. Os operários ainda pediam que os participantes da greve não fossem presos ou demitidos.

A revolta terminou depois das negociações de uma comissão formada por jornalistas do Estado, do Fanfulla (órgão da comunidade italiana) e mais sete veículos de comunicação, governo, empresários e grevistas. Uma reunião chegou a ser realizada na redação deste jornal, em 14 de julho. Dois dias depois, um comício no largo da Concórdia, no Brás, encerrou o movimento.

Os patrões concederam aumento imediato aos funcionários e prometeram estudar as demais exigências. O movimento foi considerado vitorioso porque os operários passaram a ser ouvidos nas decisões tomadas pelos proprietários.

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