Gravações dão 'vitória política' a Cabral

No Rio, envolvimento de adversários enfraquece mobilização de bombeiros

RIO , O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h08

A divulgação de conversas telefônicas entre o líder do movimento grevista dos bombeiros do Rio, cabo Benevenuto Daciolo, e deputados fluminenses enfraqueceu a mobilização dos servidores e representou uma vitória política para o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB).

Os diálogos reforçam a tese divulgada pelo peemedebista de que a greve é manobra política. A deputada estadual Janira Rocha (PSOL) e o ex-governador e deputado federal Anthony Garotinho (PR), os interlocutores de Daciolo nas conversas gravadas, representam as duas correntes oposicionistas mais radicais à administração estadual.

As gravações que mostram PMs grevistas baianos combinando atos de vandalismo e as declarações de Daciolo sobre a necessidade de nacionalizar os protestos expuseram a estratégia dos grevistas do Rio.

Ontem, Janira e Garotinho passaram o dia dando explicações. A parlamentar estadual do PSOL confirmou que assumiu que é "uma articuladora da luta de policiais e bombeiros por melhores condições salariais".

A deputada estadual Cidinha Campos (PDT) anunciou que vai representar contra a parlamentar do PSOL na Corregedoria da Assembleia. "É uma baderneira interestadual", acusou. Janira rebateu: "Quero dizer que não me intimido. Eu não estou presa ao mandato", disse a deputada. "Eu vim aqui para defender os interesses daqueles que eu acho que eu tenho que representar aqui dentro", afirmou Janira.

Em Brasília, o ex-governador confirmou ter conversado com lideranças dos bombeiros, mas negou que tenha incitado Daciolo a deflagrar greve.

Principal estrela do PSOL fluminense, o deputado estadual Marcelo Freixo é pré-candidato do partido à prefeitura do Rio. É considerado o único capaz de criar dificuldades na reeleição de Eduardo Paes (PMDB).

Preso no Complexo Penitenciário de Bangu, Daciolo é a principal liderança dos bombeiros. O movimento provocou, em junho, a pior crise política dos cinco anos e dois meses de gestão Cabral. Durante manifestação por reajustes, centenas de bombeiros invadiram o quartel central. A reação destemperada do governador e a participação de homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope) na prisão de mais de 400 bombeiros jogaram a opinião pública contra Cabral.

Estratégia. O secretário estadual de Defesa Civil e comandante dos bombeiros do Rio, Sérgio Simões, disse ontem que Daciolo pode ser expulso. "É uma possibilidade que se abra rito administrativo para avaliar as condições de permanência", afirmou.

Simões negou que haja interesse especial em punir Daciolo por causa da greve de 2011. "Não há nenhum sentimento de caça às bruxas." E afirmou que é "covardia" a ameaça de paralisação às vésperas do carnaval. "É inaceitável, é leviano."

Segundo o secretário, estão mobilizados 14 mil homens do Exército e 300 soldados da Força Nacional de Segurança para atuar em caso de greve. Ele também colocou de prontidão 2 mil bombeiros de funções administrativas.

Carnaval. De Brasília, o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, garantiu que o carnaval não corre risco de ser atingido por motins. Ele disse que as negociações com os policiais avançaram e lembrou que o Rio firmou acordo com as Forças Armadas e a Polícia Federal, desde os Jogos Pan-Americanos de 2007. "Nosso foco é o interesse público, a manutenção da paz e da segurança do Estado do Rio e assim vai ser feito", disse. Ele disse que a população do Rio e da Bahia "não merecem" ser prejudicadas por greves de policiais no carnaval. Sobre a gravação em que Daciolo incita os colegas baianos em greve, Beltrame disse que o caso foi resolvido dentro da lei. "A prisão foi uma decisão técnica do Corpo de Bombeiros, observada dentro da lei", explicou. / ALFREDO JUNQUEIRA, FELIPE WERNECK e VANNILDO MENDES

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