Grampo liga tráfico à morte de Amarildo

Delegado diz que escuta indica execução do pedreiro; investigador atual do caso, porém, não vê provas de ligação da família com o crime

Marcelo Gomes / Rio, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2013 | 02h06

Quatro dias após o sumiço de Amarildo Dias de Souza, de 43 anos, o traficante Thiago da Silva Mendes Neris, o Catatau, de 24 anos, assumiu a autoria do assassinato do pedreiro numa ligação telefônica para o celular de um policial da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, que trabalhava "infiltrado" na quadrilha com autorização judicial, segundo o delegado Ruchester Marreiros. A confissão foi gravada, já que o celular do policial estava grampeado pela Justiça.

O diálogo teria ocorrido na noite de 18 de julho, um dia após a realização da Operação Paz Armada, resultado de uma investigação conjunta da 15ª DP (Gávea) e da UPP Rocinha, que levou à prisão de 33 acusados de envolvimento com o tráfico na favela. Catatau teve prisão temporária decretada pela Justiça, mas permanece foragido.

O delegado Marreiros, que era adjunto da 15ª DP (Gávea) e presidiu o inquérito, disse nessa quinta-feira, 8, ao Estado que o traficante ligou para o celular do PM infiltrado, mas quem atendeu foi outro policial.

Naquela altura, Catatau já teria descoberto que seu interlocutor fingia estar a serviço do tráfico. O Estado não teve acesso à gravação, que já foi encaminhada ao Ministério Público. Mas, segundo o delegado, Catatau diz na conversa que "tombou (matou) o Boi (apelido que seria de Amarildo) para colocar a culpa na PM". Para disfarçar, o policial que atendeu a ligação diz que seu colega "estava preso, porque era safado que nem ele (Catatau)".

De acordo com o inquérito, Catatau era o responsável por fornecer as armas usadas pelos "seguranças" da quadrilha. Seria subordinado diretamente a John Walace da Silva Viana, o Johnny, que estaria à frente das bocas de fumo por ordem de Francisco Bonfim Lopes, o Nem, chefe da facção Amigos dos Amigos (ADA), que está em presídio federal fora do Estado do Rio.

Marreiros disse ainda que, em grampo, o traficante Marcelo Xavier da Costa, o Pará, pergunta a um homem identificado como "Boi" (que segundo ele seria Amarildo) se "ele ainda tinha garrafa". Boi diz que acabou tudo. "Pará era o ‘gerente’ do lança-perfume. Garrafa quer dizer os invólucros onde a droga é acondicionada", explicou o delegado.

Amarildo ainda é citado num terceiro grampo no inquérito. Em um diálogo entre dois traficantes cerca de um mês antes do sumiço do pedreiro, um dos bandidos diz que "Boi está vacilando, está falando demais". Para Marreiros, os traficantes desconfiavam de que Amarildo fosse "X9" (informante da polícia). O interlocutor concorda, e diz que o melhor seria "tirar o material (droga) que ele toma conta".

Guerra de relatórios. Na segunda-feira, 5, Marreiros - que desde 30 de julho está lotado na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática (DRCI) - entregou o relatório do inquérito da Operação Paz Armada ao delegado Orlando Zaccone, titular da 15ª DP. No documento, Marreiros pediu a prisão preventiva da mulher de Amarildo, Elisabete Gomes da Silva, por, segundo ele, auxiliar o tráfico de drogas. Marreiros escreveu ainda que só não pediu a prisão de Amarildo por "haver fortes indícios de incidência do artigo 107 do Código Penal" (extinção de punibilidade por morte do agente). Zaccone, por sua vez, discordou e tirou do relatório entregue ao Ministério Público o pedido de prisão de Bete.

"Os dois desempenhavam funções pequenas dentro da organização criminosa. Temos grampos telefônicos e diversos testemunhos que apontam que Amarildo seria responsável por ‘entocar’ (guardar) drogas e também repassaria ordens dos chefes do tráfico para outros membros da quadrilha. Já a Bete deixava os traficantes se esconderem em sua casa para fugirem da polícia. Quando algum PM se aproximava, os bandidos desarmavam a ‘boca’ e esperavam dentro da casa dela. Só descobrimos a qualificação completa da Bete depois que ela registrou o sumiço do Amarildo", afirmou Marreiros.

Em entrevista à Rádio CBN, Zaccone disse que as provas coletadas no inquérito não são suficientes para incriminar Bete e Amarildo. "Não recusei o relatório, apenas usei como peça de informação e anexei ao inquérito. O que não posso dizer que a Bete que aparece no documento é a mulher do Amarildo. Quantas Betes não existem na Rocinha? Também diz que um tal de ‘Boi’ é ligado ao tráfico. Não posso levar, simplesmente por presunção, um processo de criminalização contra qualquer pessoa. Quero deixar claro que a desqualificação de parentes de desaparecidos é um processo antigo no Brasil, desde a ditadura."

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