Grama para futebol chega antes da creche

No Morro do Sabão, campo será reformado; para mães da comunidade, creche é prioridade

O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2012 | 03h02

No Morro do Sabão, região do Jardim Educandário, uma das mais populosas do extremo da zona sul, jovens aguardam ansiosos a grama sintética que deve chegar para o campo de terra da favela. A obra consta de emenda do vereador Arselino Tatto (PT), político venerado pelas famílias carentes da região. O campinho na Rua Hugo Takahashi passa o fim de semana lotado de equipes da várzea. Durante a semana, crianças usam o espaço para empinar pipa.

"Tem domingo que tem 18 jogos. Começa às 8 e vai até as 22 horas. Mas, quando tem chuva, fica uma lama só, não dá para jogar", disse Genoino de Oliveira Santos, de 52 anos, um dos líderes da ocupação, localizada na frente da Cohab Educandário, onde moram outras 1,5 mil pessoas. Santos, porém, admitiu que o maior problema na região não é o campo de terra, mas a falta de creches para centenas de mães que precisam trabalhar fora.

"Estou esperando vaga neste ano e ainda não recebi resposta. É um milagre alguma mãe aqui conseguir vaga em creche e, se tem vaga, é lá no Butantã, bem longe", reclamou Isabel Cristina Lopes, dona de mercadinho ao lado da ocupação. Ela e outras mães reclamam que há anos pedem para políticos da região uma nova creche. "Faz dois anos que estou na lista de espera", contou Silmara Ribeiro, de 23 anos, desempregada e mãe de três filhos.

A prática de apresentar emendas para pôr grama sintética em campos de terra foi adotada a partir de 2007 por vereadores da zona sul. Só Milton Leite (PSD), que tenta o quinto mandato consecutivo, apresentou uma única emenda que prevê grama sintética para 37 campos de terra na região do Jardim São Luís em 2012. Ele e outros parlamentares que pediram verba para grama defendem a emenda como "obra de urbanização e lazer" em áreas carentes.

Pacote. Dentro do pacotão de reformas para o futebol de várzea, os campos foram cercados com alambrados, ganharam vestiários, dois sanitários e passaram a ser coordenados por diretorias formadas por líderes de bairro - parte ligada a vereadores. Nos últimos quatro anos, o governo municipal gastou cerca de R$ 110 milhões com a instalação de grama sintética e na reforma de alambrados e vestiários.

O valor é quase o mesmo que foi desembolsado para reforma de postos de saúde nesse período (R$ 132 milhões). Ao todo, os vereadores apresentaram 121 emendas para campos de grama sintética desde 2007. Para quem vai tentar um novo mandato, o campo de grama sintética vira uma vitrine eleitoral no "corpo a corpo" da campanha. / D. Z. e R. B.

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