Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

Grajaú tem também seu monstro do lago Ness

Moradores dizem que sucuri de 7 metros sai da Billings e engole capivara, galinha e até gente

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2011 | 00h00

Uma cobra de 5 metros (mas pode ter 6 ou 7), que aparece à noite (mas pode ser de dia), que muita gente já viu (mas ninguém conseguiu capturar) e que, enfim, tem todo sintoma de lenda urbana (mas pode existir de fato) está apavorando os habitantes do Parque Residencial dos Lagos, uma comunidade que agrega cerca de 1,2 mil famílias à beira da Represa Billings, na região do Grajaú, extremo da zona sul de São Paulo.

Segundo os relatos de moradores, a cobra come preferencialmente galinhas - mas gosta também de capivaras e patos. A Prefeitura diz ter promovido a reconstituição da fauna do parque e teme os estragos que a devastadora criatura estaria provocando.

"É um monstro que coloca a cabeça para fora d"água e mergulha, levantando a cauda gigantesca. Até cachorro ela já levou", diz a presidente da associação de amigos do parque, Vera Lúcia Basalia, de 61 anos.

Vera afixou no principal píer do parque uma placa onde se lê "Perigo, Sucuri". A classificação ofídica é por conta dela. "Eu nasci em Mato Grosso, "tô" dizendo para você, essa cobra só dá lá e na Amazônia", garante.

E como ela foi parar na represa? Veio de ônibus? Aí a história fica ainda mais indeterminada. "O pessoal diz que foi um japonês que a criou, trouxe para cá e soltou na lagoa." Tão misterioso quanto sua cria, o "japonês" não tem nome nem endereço.

Bombeiros. A orientação que se dá à população, em caso de ameaça por animais selvagens, é chamar o Corpo de Bombeiros. Vera diz que já os chamou duas vezes, mas "não coincidiu" de os dois - cobra e bombeiros - estarem ali ao mesmo tempo.

"Vamos mil vezes, se nos chamarem, mas o animal precisa estar à vista", diz, sensatamente, o cabo Rodrigues. "Uma cobra não é como um cadáver, por exemplo, que permanece no mesmo lugar. Não podemos esvaziar a represa." Em caso de captura, a cobra deve ser encaminhada ao Instituto Butantã.

O consenso entre moradores é de que o animal apareceu pela primeira vez "há uns 20 dias". Mas a aposentada Janete Marques da Silva, de 53 anos, conta que "já se fala nela desde 2003". Muito segura, Janete afirma que o animal "deu dez crias". "A mais velha deve estar agora com uns dez anos", calcula.

Uma das quase-vítimas é o feirante Elandes Santos Moreira, de 16 anos. Ele diz que, mesmo alertado, foi pescar na represa. "De repente, "ela" apareceu, colocou a cabeça para fora d"água, eu fiquei pálido", conta o pescador.

Vera reclama do cansaço por causa das vigílias noturnas à espera do bicho. "Ontem fui de moto até o outro lado da represa, mas o "fresh" dessa máquina é muito ruim", explica ela, mostrando o visor escuro da câmera. "Pena que não dá para ver, ela é feia demais. Tem uma cabeça desse tamanho (de uma bola de handebol)."

O alerta que ela colocou no píer é ilustrado com imagens "captadas" na internet - já que ninguém da comunidade conseguiu fazer uma foto que identifique a "sucuri" local.

Orientação. A Polícia Militar Ambiental explica que ao redor da Billings é bem possível que existam jiboias (que podem chegar a 4 metros). A corporação diz que faz patrulhas frequentes para acompanhar o caso.

A população anda tão apavorada que nem pensa em matar o animal. Segundo o advogado Werner Grau Neto, da Subcomissão de Direito Animal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Lei 9.605/98 determina que não se pode submeter animais a maus-tratos. "A exceção seria um animal que estivesse colocando a sociedade em risco."

Vera Lúcia diz que "a sucuri é capaz de enrolar um homem, esmagá-lo e comê-lo". Werner polemiza a suposta capacidade da cobra (se for mesmo uma sucuri) de engolir um ser humano adulto. "O ângulo máximo de abertura de mandíbulas da sucuri é 60 centímetros, não seria suficiente." Mas Vera Lúcia ainda não está convencida: "Você pensa que não é verdade, né?".

PARA LEMBRAR

Um elefante, falha geológica ou dinossauro?

"Visto" pela última vez em 2007, o monstro do Lago Ness, na Escócia, é a mais reconhecida lenda urbana contemporânea. Um ano antes, o Hunterial Museum da Universidade de Glasgow defendeu que ele surgiu do marketing do dono de um circo, ao ver um de seus elefantes tomando banho no lago. Para os cientistas, bolhas, ondas e ruídos são provocados por uma falha geológica sob o lago.

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