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Grafiteiro é detido em SP após apagar tinta sobre sua obra

Mauro Neri foi acusado de crime ambiental e assinou um termo circunstanciado

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2017 | 16h17
Atualizado 27 Janeiro 2017 | 20h41

SÃO PAULO - O grafiteiro Mauro Neri, de 35 anos, foi detido por policiais militares na tarde desta sexta-feira, 27, depois de apagar a tinta passada pela Prefeitura em um grafite que ele mesmo havia feito, com aval da gestão do ex-prefeito Gilberto Kassab, e pintar novamente uma pilastra no Complexo Viário João Jorge Saad (Cebolinha), na zona sul de São Paulo. No mesmo dia, três pichadores foram detidos e liberados mais tarde após serem flagrados por guardas civis metropolitanos pichando muros nas Avenidas 23 de Maio e Bernardino de Campos. Todos foram soltos após assinarem termos circunstanciados, quando o crime não é grave. 

Ao todo, já são ao menos 26 pessoas presas em flagrante só no mês de janeiro por pichar prédios e monumentos públicos. A Prefeitura anunciou nesta sexta que vai entrar com ações civis Públicas na Justiça contra os detidos  para solicitar o ressarcimento dos danos causados e o pagamento de multas. Também será solicitada a concessão de liminares impondo multas para o caso de o grupo ser flagrado novamente danificando bens públicos. 

Neri ficou revoltado ao saber que seus grafites no local seriam removidos, já que estavam em bom estado. Foi aí que decidiu remover a tinta cinza que a Prefeitura passou, com água, e começar outro desenho. Os policiais o flagraram por volta das 11h e o detiveram. "Eu estava removendo o cinza e escrevendo novas frases em um lugar onde eu já tinha autorização", disse ele ao Estado. 

Ele era acompanhado por uma produtora espanhola que veio a São Paulo no início da semana para gravar parte de um comentário sobre arte jovem. O foco na cidade seria filmar "a capital mundial do grafite", mas o grupo se surpreendeu ao saber que as obras estavam sendo removidas. "Não filmamos a abordagem porque houve medo de sermos presos também", disse o diretor de arte Kaue Mazon, de 32 anos, brasileiro que estava auxiliando a equipe. 

O grafite apagado foi feito em 2015 e era parte do projeto Cartografitti, da Secretaria Municipal de Cultura, contemplado em edital. O projeto foi planejado ainda na gestão Kassab, mas executado já com Fernando Haddad à frente do governo municipal. Neri coordenou o projeto. A proposta fazia um recorte no mapa da cidade com uma série de intervenções em 21 locais estratégicos, com a participação de mais de 10 artistas de rua. Segundo o artista, o projeto teve início em 2010 e durou cinco anos. "Eu acho que (a remoção do grafite) tem a ver com uma disputa eleitoral, de dar uma satisfação para parte da sociedade que é contra o grafite e a pichação", disse ele, após sair da delegacia. 

Apesar da prisão, o artista disse que o momento é "positivo" para grafiteiros e pichadores. "Só pela polemização o atual prefeito já fez mais do que qualquer outro. Deve ter triplicado o número de pichadores e eles estão agradecendo. Para o vândalo, ser criminalizado é positivo. Vai intimidar quem tinha medo, mas quem tem audácia está muito mais estimulado a continuar. É positivo que se explicite essa discussão, mas a questão é que a polêmica pode estar ofuscando assuntos mais importantes", disse. 

Museu. A Prefeitura já começou a sondar os grafiteiros que possam ter interesse em participar do projeto Museu Arte de Rua (MAR), que vai pagar os artistas de rua selecionados por uma comissão para pintar pontos específicos na cidade delimitados pelo poder público. O governo tem buscado o contato por telefone, pedindo orçamento e perguntando que tipo de material é necessário para a realização das obras. 

No meio artístico, a proposta tem causado efeitos diversos - da aprovação à ameaça de boicote. Entre os grupos nas redes sociais há quem faça campanha para que nenhum grafiteiro aceite propostas da Prefeitura.

O grafiteiro Shock Maravilha, que já prestou serviços para a Prefeitura, foi um dos que disseram ter recebido a proposta, mas recusado. "Pode causar um atrito entre o próprio pessoal da rua. Tem um impasse muito grande entre quem levanta o discurso de que precisa pagar as contas e quem faz por ideal", diz. 

Ele destaca que o problema pode virar uma "guerra", já que pichadores poderão tentar pintar por cima dos murais que serão feitos pela Prefeitura. "Simplesmente não pegou bem apagar o maior mural da América Latina, na 23 de Maio, e depois, como desculpa, dar material para os grafiteiros pintarem de novo em outro lugar. Abaixar a cabeça a esse tipo de situação é uma vitória para eles", diz. "Esse é o momento da street art mostrar seu posicionamento. O amor ao nosso trabalho é mais importante. Se quisesse agradar cliente ia para outro tipo de profissão". disse.

O grafiteiro Paulo Ito, que ficou famoso internacionalmente na Copa do Mundo ao ter viralizado nas redes sociais um desenho seu que mostrava uma criança faminta com apenas uma bola de futebol em seu prato de comida,, também criticou a medida. "A ação não vai remediar os erros que ele cometeu. Eu não vou participar em hipótese alguma, a não ser que tenha liberdade inclusive para criticar o próprio Doria. Grafitódromos polarizam a arte e a deixa acessível só para parte da população", diz

Já o casal de grafiteiros Karen Kueia e Diogo Kueio aprovou a proposta. Eles, que também receberam ligação da Prefeitura, disseram que vão participar do projeto se realmente forem chamados. "Tem um pessoal falando em boicote, mas acho que é minoria. Tenho certeza de que não vai acontecer", diz Karen. "Foi ruim terem apagado os grafites? Foi. Mas achamos que isso foi ruim para a imagem dele (Doria) e que agora ele quer consertar. O ruim é permanecer cinza".

Sobre a detenção de Neri, a Polícia diz que ele foi flagrado com a lata de tinta na mão e que alegou estar fazendo uma "intervenção artística para reservar espaço que lhe pertencia". "O material foi apreendido e foi solicitada perícia técnica. O caso foi registrado na 2ª Delegacia do Departamento de POlícia de Proteção à Cidadania", informa a nota. 

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