Governo quer navios parando em Cananeia

Projeto prevê retirada de areia do Canal da Barra para que os transatlânticos possam entrar

DIEGO ZANCHETTA , VALÉRIA FRANÇA, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2011 | 03h03

Localizadas no Parque Estadual da Ilha do Cardoso, as praias de Cananeia, no litoral sul paulista, devem tornar-se acessíveis para transatlânticos com até 3 mil turistas. É o que prevê o maior projeto do governo do Estado para o ano que vem na área do turismo.

Para permitir a entrada dos navios, o Estado reservou R$ 10 milhões no orçamento de 2012. A verba será usada em obra para retirada de uma tonelada de areia do Canal da Barra, que existe entre a Ilha do Cardoso e a cidade de Ilha Comprida.

Dessa forma, cruzeiros poderão acessar praias onde o principal atrativo turístico, segundo o secretário estadual de Turismo, Márcio França, será a observação de toninhas em um local conhecido como "Baía dos Golfinhos".

Patrimônio. Tombada como patrimônio da humanidade pela Unesco, assim como Fernando de Noronha e Galápagos, no Equador, a região de Cananeia tem 86 espécies catalogadas, entre elas, boto cinza, o jacaré de papo amarelo e pelo menos cinco tipos de tartarugas marinhas. A região também é conhecida por ser um dos mais importantes criadouros marinhos do Atlântico Sul e a maior reserva de Mata Atlântica do Brasil.

"Não se trata da construção de um porto", explica o prefeito Adriano Cesar Dias, prefeito de Cananeia. "No canal da Barra serão instalados cinco dolfins (espécie de píer de cimento para grandes embarcações), onde navios ficarão ancorados. " Segundo o projeto, os turistas serão levados à terra por barcos menores. Além dos passeios pelas águas límpidas da região, para admirar botos e golfinhos, a região dispões de muitas trilhas pelos parques. "Teremos de formar mais monitores capacitados para acompanhar a nova demanda."

Cananeia tem 12.226 habitantes, cerca de 60 pousadas e hotéis e apenas uma agência de turismo cadastrada, a Canystur, que trabalha com uma equipe de dez monitores. "Neste feriado, a cidade está totalmente lotada. Não há mais vagas nos hotéis", diz Bruno Luiz Beglionimi, dono da Canystur, que está animado com a perspectiva de a região se transformar em rota de transatlânticos.

França diz ter contatado operadoras de turismo interessadas em explorar esse potencial turístico. "Elas mostraram total interesse."

Impacto. Ambientalistas, no entanto, ainda não foram envolvidos nesse processo. Falta, por exemplo, um estudo de impacto das mudanças que seriam provocadas na região.

"Somos a favor de um turismo sustentável, organizado e que ajude no desenvolvimento, mas sem comprometer o meio ambiente", diz Marcia Hirota, diretora de gestão do conhecimento da ONG SOS Mata Atlântica, que até ser contatada pela reportagem do Estado não tinha nem ouvido falar do projeto.

"Não dá para começar pela dragagem do canal. Primeiramente, é preciso criar infraestrutura para receber tanta gente. Isso tem de ser muito debatido entre os institutos ambientais que trabalham na região", afirma.

Para os ambientalistas, só a dragagem da Barra já seria um abalo para o lugar. "Os botos cinzas se comunicam pelo barulho", lembra a bióloga Letícia Quito, do projeto Boto Cinza do Instituto de Pesquisa de Cananeia, uma das ONGs do local. "A obra afetaria, sim, estes animais."

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