Governo quer expulsar grevistas à força

Tentativa de acordo pacífico não avança e 1.470 homens de tropas federais cercavam ontem Assembleia Legislativa de Salvador

TIAGO DÉCIMO / SALVADOR, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2012 | 03h01

Em um dia sem negociações entre grevistas e governo da Bahia, o Exército voltou a apertar o cerco aos policiais amotinados na Assembleia Legislativa. O secretário da Casa Civil, Rui Costa, disse que o governo não vai mais negociar com os líderes do movimento e o Exército poderá usar a força para "resolver a situação".

"A paciência da sociedade está se esgotando. Vão chegar mais tropas à Bahia e a situação será resolvida, de uma forma ou de outra", afirmou Rui Costa. "Não negociamos com o (Marco) Prisco (presidente da Aspra, que comanda a ação na Assembleia), que tem contra si um mandado de prisão expedido. E esse mandado será cumprido nas próximas horas."

Ele ressaltou, porém, que outros grevistas - não envolvidos em crimes - não devem ser punidos. "Já concluímos as negociações. Os que não tiveram atitude de agressão à sociedade não sofrerão sanção administrativa ou judicial."

O terceiro dos 12 mandados de prisão contra líderes do movimento grevista foi cumprido no fim da tarde de ontem, segundo a Secretaria de Segurança Pública. A soldado Jeane Batista de Souza, do Batalhão de Guardas da PM, é acusada de formação de quadrilha e roubo de patrimônio público (viaturas), assim como os dois policiais já detidos, o soldado Alvin dos Santos Silva, preso no domingo, e o sargento Elias Alves de Santana, detido na terça-feira. Os três também passarão por processos administrativos da PM.

O Estado até admite pagar a gratificação solicitada pelos sindicalistas, mas em um prazo maior, e não abre mão de punir os líderes da greve. Depois de se reunir com o governador Jaques Wagner, o deputado federal Nelson Pelegrino (PT) reiterou que o governo já cedeu o que podia na questão salarial. Em nota oficial, a bancada baiana no Congresso afirma que a situação "chegou ao limite". Nenhum integrante da oposição, porém, quer comentar o caso.

As linhas montadas ontem pelos militares para isolar os manifestantes foram estendidas em cerca de 300 metros - o que levou ao bloqueio de todos os acessos ao Centro Administrativo da Bahia (CAB). O número de integrantes do Exército no local também foi aumentado, de 1.050 para 1.200 - há ainda 50 policiais da Força Nacional, 200 de grupos da PM e 20 da Polícia Federal.

O momento de maior nervosismo foi pela manhã, quando um grupo foi impedido de levar mantimentos para os acampados. Como resposta, os grevistas passaram a gritar palavras de ordem e a provocar os militares. À tarde, um grupo de simpatizantes do movimento bloqueou por meia hora a Avenida Paralela, principal acesso ao aeroporto de Salvador. E à noite houve corre-corre quando outro grupo tentou furar o bloqueio.

Violência. Os homicídios na região metropolitana já somam 135 desde o dia 31. Só entre a madrugada e a tarde de ontem, foram seis assassinatos. A população reclama que o Exército não tem feito patrulha à noite na periferia da capital. Em Feira de Santana, a 109 km de Salvador, tropas do Exército montaram pequenas bases perto de seis hospitais e de prontos-socorros da periferia. Os médicos e enfermeiros ameaçavam parar de trabalhar por falta de segurança. / COLABORARAM DIEGO ZANCHETTA e LUCIANA NUNES LEAL, ENVIADOS ESPECIAIS A SALVADOR

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