Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Doria já deve diminuir as restrições ao comércio de SP? Especialistas acreditam que é cedo

Estado indica que pode suspender veto a lojas e bares esta semana; flexibilização em meio à reabertura de escolas e surgimento de variantes preocupa

Luiz Carlos Pavão, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2021 | 09h00

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), indicou nesta segunda, 1º, que pretende anunciar a redução de restrições de atividades não essenciais em todo o Estado já nesta quarta-feira, se os índices de internação e mortes por covid-19 permanecerem no parâmetro atual. Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, a decisão do governo é "precoce", diante do cenário de alto número de infecções pelo País, do processo de reabertura das escolas e do surgimento de novas variantes do vírus.

Desde 25 de janeiro, a gestão Doria estabeleceu que todo o Estado entra, das 20 horas às 6 horas da manhã, na fase vermelha (a mais restritiva) do Plano São Paulo, programa paulista de reabertura econômica. Neste nível, só é permitido abrir serviços essenciais, como supermercados e farmácias. Nos finais de semana, o Estado fica na fase vermelha durante o dia e a noite.

Se forem suspensas as medidas de restrição, o funcionamento de lojas, restaurantes e bares já estaria liberado no próximo fim de semana. Os índices positivos destacados por Doria são as hospitalizações e os óbitos pela covid-19, que tiveram queda nas últimas duas semanas, mas seguem superiores aos registrados entre setembro e dezembro.

Médica e diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Monica Levi avalia que não é hora de afrouxar as medidas restritivas, pois é a estratégia que ajuda a conter o número de internados e mortos. “Se a gente reabrir serviços não essenciais agora, o que provavelmente vamos ver daqui duas ou três semanas é um colapso no Estado de São Paulo, assim como ocorreu em Manaus.”

Ela considera que eventual flexibilização é “irresponsável” e “incoerente” e cita a preocupação com as novas cepas do coronavírus. “Temos três variantes no mundo que são de grande preocupação porque foram associadas a uma mudança epidemiológica terrível - e uma delas é no Brasil." Mônica pondera que os interesses econômicos devem ser considerados. “Se a gente quiser salvar vidas e manter minimamente uma melhora na rede de transmissão e nos eventos fatais e internação, acho que o justo seria manter a fase vermelha, mas pensar também em um auxílio emergencial para estabelecimentos proibidos de funcionar e aos cidadãos que trabalham nesses locais. É isso que eu esperaria do governo.”

O médico e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Marcio Bittencourt acredita que uma flexibilização é precoce. “Acredito que não deveria ser revista uma intervenção na direção de flexibilizar com menos duas semanas de implementação. Sempre o prazo mínimo para se começar a avaliar as intervenções é de duas a três semanas.”

Bittencourt avalia também que pelo pouco tempo de implementação, é difícil dizer que a queda teve origem nas intervenções feitas e diz ser preocupante o registro crescente de infecções. “Os números de São Paulo ainda não estão bons, as taxas de internados e de novos internados são grandes, assim como a de óbitos. Me preocupa um pouco uma flexibilização muito intensa. A gente tem de pensar passo a passo, inclusive porque temos outras prioridades, como manter as escolas abertas, que são muito mais importantes do qualquer outra área que possa ter seu funcionamento flexibilizado neste momento." O Estado autorizou a reabertura das escolas nessa segunda-feira, 1º. Na capital, os colégios privados retomaram as atividades presenciais.

Bittencourt ainda afirma que as perspectivas para as próximas semanas estão mais ligadas ao comportamento das pessoas do que do vírus. “Claro que uma nova variante pode mudar o que o vírus faz, mas o comportamento do vírus é mais previsível do que o das pessoas. Não tenho expectativa de piora aguda tão rápida como outros especialistas têm. Mas, claro que se a gente continuar flexibilizando e novas variantes, como a de Manaus, se tornarem mais prevalentes em São Paulo, há risco de piora mais intensa.”

Para o doutor em Microbiologia pela USP e membro do Instituto Questão de Ciência, Luiz Gustavo de Almeida,  falta clareza na  comunicação de como essas decisões estão sendo tomadas. A redução de hospitalizados, acrescenta, é apenas de um recorte de tempo. “A justificativa da flexibilização é relacionada à queda nas internações, mas está caindo em relação ao começo de janeiro que, claro, era resultado das aglomerações das festas de fim de ano. Isso aí a gente não sabe se já passou. Provavelmente devemos ter uma estabilidade dessa alta de casos por um tempo.”

E prossegue. “Falta transparência de saber como está se avaliando isso e principalmente a fiscalização e monitoramento dessas medidas, para saber se os bares e restaurantes realmente estão abrindo nos horários não permitidos. O que mais temos visto são locais abertos e com aglomerações”, aponta Almeida.

Ele ainda prevê que a flexibilização juntamente com o retorno das aulas pode ter efeitos negativos. “Falta prioridade do que querem abrir ou manter aberto", diz. "Talvez isso seja pior porque o retorno pode causar um aumento de casos e um fechamento na sequência. O que mostra que não há muito planejamento.”

Sobre a nova cepa do vírus  ser mais transmissível, avalia que esse ciclo de muita flexibilização pode causar também a criação de novas variantes do vírus, como ocorreu em Manaus. “Isso é causado pelo comportamento das pessoas que possibilitou o surgimento de novas variantes. Abrirmos mais e deixarmos que o vírus circule pode propiciar uma nova variante e, com isso, um aumento de casos e a perda total de controle sobre os números de casos e internações”, afirma.

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