Governo demite filho de símbolo da ditadura

Com carreira polêmica na Polícia Civil, 'Fleurizinho' foi acusado de presentear secretárias de uma juíza com bolsas Louis Vuitton falsificadas

Bruno Tavares, Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2010 | 00h00

Improbidade. Fleury também é investigado por Promotoria 

 

O governador Alberto Goldman (PSDB) demitiu ontem da Polícia Civil o delegado Paulo Sérgio Oppido Fleury. A decisão foi tomada em processo administrativo no qual o delegado era acusado de presentear as secretárias da então juíza-corregedora Ivana David Boriero com bolsas Louis Vuitton falsificadas. Isso foi considerado um "procedimento irregular de natureza grave", o que acarretou a demissão.

A decisão do governador foi publicada ontem no Diário Oficial. Fleury é filho do delegado Sérgio Paranhos Fleury, símbolo do esquadrão da morte e da repressão política no País durante o regime militar. Fleury, o pai, trabalhava no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) quando o ex-comunista Goldman ainda militava no Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Já o filho fez na polícia uma carreira menos polêmica do que o pai. No caso das bolsas, Fleurizinho, como é conhecido, foi condenado em primeira instância a 2 anos de prisão, mas acabou absolvido pela 15.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça. Apesar disso, o processo administrativo, que é independente do processo criminal, continuou. O delegado Marco Antônio Desgualdo, diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), havia proposto a suspensão de Fleury.

A pena de suspensão havia sido aceita pelo então secretário da Segurança, Ronaldo Bretas Marzagão. O problema é que a competência para decidir processos administrativos de delegados, por lei, não é do secretário, mas do governador. Assim, o atual secretário, Antônio Ferreira Pinto, anulou a decisão de seu sucessor e enviou o caso para o Palácio dos Bandeirantes, a fim de que o governador decidisse o destino de Fleurizinho.

O policial era o todo-poderoso da delegacia de combate à pirataria quando foi acusado de desviar mercadorias apreendidas. Segundo o Ministério Público Estadual, Fleurizinho teria transformado sua empresa de assessoria (Fleury Consultoria Ltda), em uma espécie de delegacia pirata, fazendo da unidade policial que chefiava uma extensão de suas atividades empresariais.

O delegado usava o posto que comandava para fazer as investigações contratadas pelos clientes de sua empresa. Foram achados 25 autos de apreensão de mercadorias sem vínculo com inquéritos, cujos bens não haviam sido enviados à perícia, mas "subtraídos pelos denunciados", segundo denúncia dos promotores de Justiça.

Por causa disso, Fleurizinho foi condenado a 6 anos e 8 meses de prisão. Ele recebeu da 23.ª Vara Criminal o direito de apelar em liberdade da condenação - o TJ ainda não analisou o recurso. O processo administrativo desse caso ainda não foi concluído. O delegado é investigado ainda pela 4.ª Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social sob suspeita de improbidade administrativa.

Vítima. Fleury se diz vítima de perseguição pessoal do secretário Ferreira Pinto e afirma que é inocente. Sua defesa alega que ele não praticou crime ao presentear as secretárias, pois a empresa dona da marca não representou pela apreensão. O Estado procurou seu advogado, Jorge Henrique Monteiro Martins, mas ele não retornou as ligações.

Fleurizinho é o segundo importante delegado da Polícia Civil paulista demitido pela atual gestão desde que o governo decidiu investir no combate à corrupção policial por meio da subordinação, em 2009, da Corregedoria da Polícia Civil diretamente ao gabinete do secretário da Segurança Pública. Antes dele, foi demitido o delegado André Luiz Martins Di Rissio Barbosa, ex-presidente da associação dos delegados, que foi condenado pela Justiça a 23 anos e 8 meses de prisão sob a acusação de corrupção.

PARA LEMBRAR

Fleury, o pai, foi um dos chefes da repressão

Era 1.º de maio de 1979 quando um escorregão matou o delegado Sérgio Paranhos Fleury. O doutor Fleury caiu do barco em que estava em Ilhabela (SP) e morreu afogado. O acidente banal acabou com a vida do homem que matou alguns dos maiores inimigos do regime militar (1964-1985), como os líderes comunistas Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira. Militares aprenderam com ele a prender, torturar e matar. Criou a figura do cachorro, o militante de esquerda que mudava de lado e delatava colegas - caso de José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo. O promotor Hélio Bicudo tentou condená-lo pelos crimes do esquadrão da morte - quando teve, por pouco tempo, a prisão decretada, ele ficou detido em seu gabinete, no Palácio da Polícia. Os policiais o viam como um líder. Foi capaz de explorar o medo que seu nome causava para obter a rendição de um bandido que mantinha reféns em um bar no centro de São Paulo. Tornou-se um dos símbolos daqueles anos de chumbo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.