''Gostava daquela época. Nós não tinha arrego. Encarava na bala''

José, de 19 anos, vive descalço. De tão grossa, a planta do pé parece sola de sapato. Usa camiseta e bermuda da marca esportiva preferida dos traficantes que por duas décadas mandaram no Borel, a primeira favela da zona norte a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora. José (o nome é fictício) nunca gostou de crack nem de cocaína. Só fumava maconha nos tempos mais duros da vida bandida.

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

"Era do tráfico, mas agora acabou", diz. Sente saudades da adrenalina. "Gostava daquela época. Nós não tinha arrego (pagamento de traficante a policiais, conforme a gíria da criminalidade). Nós encarava na bala." Nos tempos do tráfico, José fazia serviços de mototáxi para os bandidos e defendia o morro. "Tinha de dar a vida pelo homem", resume sua missão. O "homem" fugiu quando o Bope tomou a favela. José ficou.

Primeiramente retomou o estudo, abandonado na 5.ª série. Não durou dois meses. Tentou então trabalhar. "Lembro dele cedinho na fila se candidatando a uma vaga de garçom. Mas acabou recusado porque não tinha o ensino fundamental", conta Monique Carvalho, socióloga que chegou ao Borel com a pacificação.

José tentou então se inscrever nos cursos profissionalizantes. Foi recusado por pouca escolaridade. As recusas foram deixando José acuado. Na época do tráfico, diz que ganhava até R$ 3 mil por mês. Agora passa os dias na rua. José já ouviu do próprio comandante da UPP que podia tocar a vida sem medo. Ele até sonha com isso, mas não sabe como fazer.

O amigo Leo (nome fictício) acalenta o mesmo sonho. Tem 24 anos e parece muito mais velho. Os dois anos na prisão e a vida no crime deixaram marcas no corpo e um sorriso banguela. Foi parar na penitenciária por assalto e agora vive em liberdade condicional.

Além de bicos no tráfico e assaltos, Leo já trabalhou em supermercado e foi camelô. Se pudesse escolher, teria sido piloto de avião. Agora, nem faz questão de mais nada. Leo não está feliz com a UPP. "Os PMs agora são a lei e a gente é o lixo." Mas reconhece que nunca viu tanta oportunidade no morro.

Bico. João (nome fictício) também está em liberdade condicional, após um ano preso. Aos 25 anos, é pai de dois filhos e a mulher está grávida do terceiro. Já se livrou do vício da cocaína. Começou a cheirar quando era soldado do tráfico. A ele cabia fazer longos plantões noturnos, armado de fuzil. Desde que saiu da cadeia, vive de bico. "Fiquei sete meses trabalhando de carteira assinada numa obra no morro. Foi muito bom. " Seu sonho agora é trabalhar com plantas.

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