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Gorila escapa de médicos

Quem olha as árvores não vê a floresta. Este é um ditado que tem fundamento biológico. Quando demandado, nosso sistema visual é capaz de acompanhar eventos com grande precisão. Mas isso tem um custo. Deixamos de captar estímulos visuais não relacionados ao que estamos observando atentamente. É um tipo de cegueira que aflige todos nós.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2013 | 02h11

Essa característica de nosso sistema visual foi descoberta na década de 1970, mas o melhor exemplo é um filme feito em 1999 para ser usado em um experimento que estudava o fenômeno em voluntários (http://www.theinvisiblegorilla.com/gorilla_experiment.html). No filme, vemos um grupo de jovens passando uma bola de basquete. O narrador nos pede que contemos quantas vezes as pessoas de camisa branca passam a bola. É necessário muita concentração para conseguir contar, mas a maioria das pessoas chega ao resultado certo, 15 vezes. Aí o narrador nos pergunta: "Você viu o gorila?". A grande maioria das pessoas não percebe que, enquanto ela está contando o número de vezes em que a bola muda de mão, um ator vestido de gorila entra na cena, para, olha para o espectador e sai de cena. Mas, basta assistir ao filme sem contar as passagens de bola, que o gorila fica evidente. E você se pergunta: "Como não vi o gorila?". É a cegueira causada pela atenção.

Agora um grupo de cientistas resolveu investigar se essa cegueira parcial também ocorre em observadores extremamente bem treinados, cuja profissão envolve observar imagens. Os escolhidos foram os médicos radiologistas do Brigham Hospital, em Boston (EUA). Os médicos examinam diariamente centenas de imagens de raios X, tomografias e ressonâncias com o objetivo de identificar anormalidades.

O experimento envolveu 24 radiologistas e 25 leigos, todos voluntários. Os pesquisadores pediram aos voluntários que identificassem as lesões cancerosas em uma série de imagens de tomografias computadorizadas obtidas de cinco pacientes. As imagens eram cortes transversais do tórax do paciente. Para examinar todo o pulmão de um paciente são necessárias de 100 a 500 imagens. Os médicos radiologistas fazem isso todos os dias, mas os voluntários tiveram de ser treinados para aprender a identificar os tumores, que aparecem como pequenas manchas brancas. Durante o tempo em que os médicos e os leigos examinavam cada imagem, uma câmara especial, colocada no computador em que as imagens eram visualizadas, detectava com grande precisão os movimentos dos olhos da pessoa que olhava as imagens. Desse modo, era possível saber onde o olho do voluntário estava focado.

Quatro das cinco séries de imagens eram de pacientes com câncer e não haviam sido modificadas. A quinta série também era de um paciente com câncer, mas havia sido modificada. Os cientistas colocaram a imagem de um gorila em diversos dos cortes transversais, como se um gorila de 3 por 5 milímetros estivesse localizado no interior do pulmão do paciente.

Os médicos e os leigos examinaram os cinco grupos de imagens procurando os tumores. Não havia limite de tempo, o objetivo era achar todos os tumores metastáticos no pulmão dos cinco pacientes. A tarefa é difícil e exige atenção, tanto assim que os radiologistas só identificaram 55% dos tumores presentes e os leigos, 12%.

Terminado o teste, foi perguntado aos voluntários (médicos e leigos) se haviam notado algo de diferente em algum dos pacientes. Somente quatro dos 24 radiologistas haviam detectado o gorila. Nenhum dos 25 voluntários leigos viu o gorila. Mas, quando os cientistas avisaram que havia um gorila em um dos pacientes, todos os voluntários rapidamente foram capazes de localizar a imagem do gorila em poucos segundos. O mais interessante é que a câmara que acompanhava o movimento dos olhos dos voluntários durante todo o estudo detectou que a grande maioria dos voluntários focou o olho exatamente em cima do gorila diversas vezes.

A explicação para o fato de o gorila ter escapado durante o exame é que as pessoas estavam concentradas em achar manchas brancas e não um gorila. Com a atenção focada em uma forma específica, o sistema visual se tornou cego para qualquer outro tipo de imagem.

O experimento mostra que a cegueira visual seletiva também acontece com pessoas muito treinadas e com grande experiência em tarefas que exigem muito do sistema visual. Se por um lado isso é preocupante, pois os radiologistas podem deixar de ver outros tipos de anomalias quando procuram por um fenômeno específico em imagens, por outro lado, saber que esse fenômeno ocorre vai ajudar a treinar melhor os jovens radiologistas das escolas de Medicina. * MAIS INFORMAÇÕES: THE INVISIBLE GORILA STRIKES AGAIN: SUSTAINED INATTENTION BLINDNESS IN EXPERT OBSERVERS. PSICOL. SCI. DOI: 10.1177/0956797613479386 2013

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