Golpes antigos ainda fazem vítimas

Truques do bilhete premiado e da bolinha escondida resistem ao tempo; alvo dos estelionatários são idosos, mulheres e turistas

GIO MENDES , CAMILLA HADDAD , JORNAL DA TARDE, O Estado de S.Paulo

05 Março 2012 | 03h02

Os golpes são conhecidos há décadas, mas ainda fazem vítimas na capital paulista. Desde os anos 1940, com a popularização da loteria federal, estelionatários abordam pessoas nas ruas para vender "bilhetes premiados" por uma quantia irrisória. No mês passado, uma aposentada de 80 anos quase perdeu R$ 25 mil na Vila Formosa, zona leste, ao cair na conversa de uma golpista que estava "abrindo mão" de um prêmio de R$ 440 mil.

O "golpe da recompensa", que surgiu nos anos 1990 e no qual o criminoso deixa cair um pacote de dinheiro ou um cheque no chão para ser recuperado pela vítima, também foi registrado recentemente na região da Avenida Paulista. Estelionatários ainda costumam aplicar com frequência nas ruas do centro da cidade o "golpe das três tampinhas", tão velho quanto o do bilhete premiado. Neste, a vítima tem de acertar em qual das tampas está escondida uma bolinha. Ela pode até acertar, mas o golpista conseguirá fazer a bola sumir do local indicado.

A moradora da Vila Formosa só não entregou o dinheiro para a golpista e a comparsa dela, que fingiu pagar metade do valor pedido pelo bilhete, porque o gerente do banco desconfiou e ligou para a polícia. O caso ocorreu no dia 14 de fevereiro. O gerente quis saber o que a idosa faria com tanto dinheiro e ela revelou que iria comprar um bilhete premiado. As duas golpistas, de 44 e 63 anos, foram presas, mas saíram da delegacia no mesmo dia, depois de cada uma delas pagar fiança no valor de quatro salários mínimos (R$ 2.488).

Lábia. O delegado Manoel Camassa, especialista em casos de estelionato, não se surpreende com o fato de golpes antigos ainda serem executados com tanto sucesso. "O estelionatário é um ator, que domina a arte de trapacear e enganar com conversa fiada. Se precisar chorar, ele chora. As vítimas ficam envolvidas com a lábia dele", diz.

Para o cientista político Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública, os golpistas conquistam as vítimas com a ideia do dinheiro fácil. "Todos os golpes têm um mesmo fundamento, que é o de apelar para a ganância das pessoas", diz Mingardi. Ele afirma que os criminosos têm paciência para encontrar uma vítima que não conheça seus truques. "Se ele tentar enganar dez pessoas e apenas uma cair, ele ganhou o dia."

De acordo com o capitão Cleodato Moisés do Nascimento, porta-voz do Comando de Policiamento da Capital (CPC), o alvo preferencial dos golpistas são idosos, mulheres e turistas. "Mas eles analisam muito a pessoa antes de agir, para ter certeza de que o golpe vai dar certo."

Segundo o capitão Moisés, muitas vítimas relutam em dar queixa na delegacia. "No caso do 'golpe das tampinhas', quando a PM detém os criminosos, a vítima não quer ir até a delegacia com medo de sofrer represália ou porque acha que vai perder tempo", diz o porta-voz da PM.

De acordo com o cientista político, as vítimas evitam procurar a polícia em alguns casos porque se sentem envergonhadas. "Elas não querem admitir que fizeram papel de bobas", diz Mingardi.

As Polícias Civil e Militar não têm o levantamento das vítimas que sofreram esses tipos de golpes, mas reconhecem que os casos são frequentes.

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