Godoi, o pedreiro que virou dono de colégio

Nascido na Zona da Mata mineira, ele veio para São Paulo com 14 anos e, após décadas de trabalho em banco e construtora, resolveu dedicar-se à educação. Hoje dirige 2.450 alunos e 312 funcionários

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

"Eu tinha de 11 para 12 anos de idade. Morava na área rural de São Pedro dos Ferros, na Zona da Mata mineira. Aí um fazendeiro inventou de fazer uma escola de uma sala só, cada fila de cadeira era uma série. E a professora bateu lá em casa para conversar com meu pai:

- Matricula as crianças lá. Não precisa pagar nada.

Foi a minha primeira escola. Quando entrei nela, falei:

- Um dia vou fazer uma dessas para mim!"

É isso que Gisvaldo Godoi conta quando alguém lhe pergunta como é que ele foi se tornar proprietário do Albert Sabin, colégio que funciona no Parque dos Príncipes, zona oeste da cidade, depois de ter capinado muito a terra, trabalhado em curtume e maltratado as mãos como servente de pedreiro em São Paulo.

Nascido em junho de 1945 no município mineiro de Jequeri, Zona da Mata, seu pai era um pequeno sitiante que plantava de tudo, para subsistência. "Tinha um pouco de milho, um pouco de arroz, um pouco de feijão", recorda-se. "E umas vacas que davam leite. De vez em quando fazíamos um queijinho."

Quando ele tinha 7 anos, a família se mudou para São Pedro dos Ferros. A exemplo de seus outros nove irmãos, a lida diária começou cedo para Gisvaldo. "Com 8 anos, eu já trabalhava na roça, ajudando meu pai", lembra. Em sua casa, o único livro existente era a Bíblia. Não havia jornal, revista nem radinho. Quando se viu em uma sala de aula, ainda que simples, achou que aquela era sua oportunidade. "Entendia que ali estava um diferencial para minha vida", comenta.

Mas ele pretendia ir para longe. "Não queria aquela vida para sempre. Podia ir para Juiz de Fora, Belo Horizonte, Rio ou São Paulo. Para mim, não faria diferença." Aos 14 anos, convenceu o pai a deixá-lo morar com uma tia, que vivia em Osasco, na Grande São Paulo.

Cidade grande. Ao chegar, foi tomado de um "alumbramento" parecido com o que experimentou ao conhecer a primeira sala de aula. "Antes, jamais tinha ido a uma cidade nem com 30 mil habitantes. Foi um choque", admite. "Era tão caipira que não trouxe nenhum documento pessoal." Seu primeiro emprego foi em um curtume de Carapicuíba, onde ficou por um ano.

Depois, conseguiu trabalho em uma metalúrgica no bairro da Água Branca, zona oeste. "Aí, com 15 anos, deixei a casa de minha tia e me mudei para São Paulo", conta. "Acho que passei, no total, por uns dez ou 12 pensionatos, a maior parte deles na região do Bexiga." Então começou a atuar na construção civil, como servente de pedreiro.

Em um dos pensionatos, fez amizade com um estudante de Física da Universidade de São Paulo (USP). Ele botou em sua cabeça como seria importante retomar os estudos - Gisvaldo só tinha concluído o primário. "Acabei fazendo um curso preparatório para concursos públicos", conta. Em fevereiro de 1965, aos 19 anos de idade, deixou de ser pedreiro. Tornara-se escriturário do antigo Banco do Estado de São Paulo, o Banespa.

Nova vida. Com emprego fixo, Gisvaldo se animou a completar sua escolaridade. Cursou o chamado "madureza" - o curso supletivo - e se formou em Administração de Empresas. Paralelamente a isso, foi somando promoções no banco. "Fui auditor contábil e cheguei até a chefe de Divisão da Administração Geral", afirma. "Na carreira administrativa, faltavam apenas dois cargos para chegar ao topo."

Pediu demissão em 1978. Foi montar seu próprio negócio, uma construtora. "Escolhi isso pelo meu passado como pedreiro. Era a única coisa que eu tinha noção", explica. Com o passar dos anos, surgiu a ideia de fundar uma escola - a mulher de um funcionário da construtora era pedagoga e entrou, inicialmente, como sócia do empreendimento.

Em 1993 nascia o Colégio Albert Sabin, no Parque dos Príncipes. As aulas tiveram início no ano seguinte. "No começo, eu disse que só toparia se fosse uma escola pequena, com no máximo 300 alunos", revela. "Mas no primeiro dia de aula já tínhamos 1.450 (hoje são 2.450 estudantes e 312 funcionários)."

Há seis anos Gisvaldo se dedica integralmente à escola - a construtora é administrada pelo seu filho. Casado há 34 anos, Gisvaldo tem uma filha, que trabalha na escola, e é avô de quatro netos. Como gosta de circular, ele é comumente reconhecido pelos alunos, que o chamam apenas de Godoi, e, sem nenhuma formalidade, cutucam-no e brincam com ele.

De pedagogia construtivista, o colégio - cujas mensalidades variam de R$ 1.066 a R$ 1.273 - tem conseguido bons resultados. Em 2007, o Sabin ficou na nona colocação - entre os paulistanos - no ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). "A grande inovação do construtivismo é prever que cada escola possa se ajustar ao perfil de seus alunos", ressalta a educadora Silvia Colello, da Faculdade de Educação da USP. "Construtivismo é uma postura."

Pais de alunos parecem satisfeitos. "Sinto que meu filho (o caçula, Marcelo, de 11 anos) e seus colegas convivem com um sistema de ensino moderno, dinâmico, atuante e atento à individualidade do aluno", diz o cartunista Mauricio de Sousa. "De negativo, só tenho a lembrança do trânsito na saída ou na chegada do colégio. Mas isso talvez possa ser encarado também como um bom sinal", completa.

E, entre um sorriso e outro, com a certeza de que realizou seu sonho da escola própria, Gisvaldo só tem uma coisa a lamentar: seus netos jamais estudarão no Sabin. "Foi uma decisão familiar que tomamos. Já imaginou o fardo que essas crianças teriam de suportar se estivessem na escola do avô?"

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