Glórias pedestres

Todo filho de Deus tem direito a pelo menos uma implicância (o mais famoso deles, para começar, não cismou com os vendilhões do templo?), e uma das minhas - sim, a esta altura já tenho direito a mais de uma - vem a ser a moda das estátuas pedestres, abominação à qual já dediquei uma crônica. Se o camarada merece estátua, tem de ficar acima dos comuns mortais, não acha?

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2012 | 03h06

Aqui em São Paulo, felizmente, a moda ainda não pegou. Mas no Rio e em Belo Horizonte... Na capital mineira, então... Lá, se bobear, a população brônzea atarraxada ao solo poderá rivalizar um dia, em termos demográficos, com a de carne e osso. Bem, admito que agora exagerei um pouco. Mas não custa advertir, para que a praga escultórica não se dissemine. Foi esse temor que me levou a escrever a tal crônica, quando, em visita a Beagá, me deparei com um punhado de escritores imobilizados ao rés do chão.

Na região da Savassi, um dos congestionamentos prediletos da classe média belo-horizontina, topei com a figura miúda da poeta Henriqueta Lisboa em pé com um livro aberto nas mãos. Ultimamente providenciaram para ela nova locação - Henriqueta agora está chumbada em frente ao prédio onde morava, no mesmo bairro. Nas imediações se pode ver também o romancista Roberto Drummond, que tanto amava a Savassi e que, reescrito em bronze, acabou ficando brilhante também em sentido literal, de tanto ser apalpado.

No centro de Beagá, onde bateram pernas na juventude, Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, já maduros e artríticos, papeiam na Rua Goiás. Só assim pôde ser visto novamente na cidade o poeta que em vida lá esteve pela última vez em 1954 e que, nos anos 1970, reagiu à desfiguração dela com os versos doídos de Triste horizonte. Na Praça da Liberdade, por fim, ressuscitou em metal o célebre quarteto formado por Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino. Os quatro estão hoje prudentemente instalados à porta da biblioteca estadual, para evitar desfrutes - e até agressões como a que, em outro local, deixou nocaute o poeta Paulo.

Mas sejamos justos com Belo Horizonte, de forma alguma a única cidade brasileira assolada pela moda das estátuas pedestres. No Rio, a mais notória é aquele Drummond encravado num banco da Praia de Copacabana. Já perdi a conta das vezes lhe roubaram os óculos. Sete? Por aí. Solução definitiva, meus amigos, só com lentes de contato. E ainda bem que o bronze não permite a extração das dentaduras duplas cuja chegada prematura o poeta lamentou em versos.

No largo a que deram seu nome, no Jardim Botânico, Otto Lara Resende lê de pé ao lado de cadeira e mesa. Na ponta da Praia do Leblon faz expressão corporal o até hoje inigualado colunista Zózimo Barrozo do Amaral. Na frente do Copacabana Palace, bate ponto outro colunista legendário, Ibrahim Sued, frequentador do hotel em companhia da Gigi, sua cadelinha yorkshire. Mas só ele ganhou estátua.

Dia atrás, em Buenos Aires, entrei no Biela, café e restaurante de La Recoleta - e quem estava lá? Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. Borges, com aquela cara de Borges, apoia as mãos no castão da bengala, enquanto Bioy, sorridente, escreve alguma coisa num livro sem baixar os olhos até ele. Entre os dois - ambos carentes, ó pessoal do Biela, de uma boa espanada -, uma cadeira espera por papagaios de pirata literários. Os mesmos, quem sabe, que na calçada do café A Brasileira, em Lisboa, se fazem retratar ao lado de Fernando Pessoa.

Uma consulta em mesa branca poderia revelar se algum dos homenageados, onde quer que seja, está satisfeito com sua condição de estátua pedestre. Duvido. Os riscos me parecem maiores que a maior das vaidades. Em Oviedo, na Espanha, espetaram na rua um Woody Allen de bronze. O mesmo Allen que pôs na boca de um personagem de rarefeita vida sexual esta delícia de frase: "A última vez que estive dentro de uma mulher foi quando visitei a Estátua da Liberdade". Reze o grande diretor para que não venha alguém tomar com ele a mesma liberdade.

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