Glauco foi punk e manteve traço rude até o fim

O primeiro a escrachar os generais

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

13 Março 2010 | 00h00

Em suas pessoinhas narigudas, cheias de perninhas (se movimentando como se derrapassem) e olhos esbugalhados, Glauco Villas Boas condensou a ansiedade, a insegurança, a sofreguidão, as travas e o desejo de liberação de toda uma geração, aquela que veio logo após a ditadura militar.

Ele foi o cartunista oitentista que continuou punk até o fim. Há cartunistas chapa-branca, politicamente alinhados, assim como outros que se esforçam demais para agradar ao patrão. E há cartunistas que ignoram solenemente os lobbies e as vontades hegemônicas. Glauco era desse último time. Nunca foi de direita, nunca foi de esquerda, nunca foi de centro - era simplesmente livre.

Curioso notar como o time intitulado Los Três Amigos - Glauco, Laerte Coutinho, Arnaldo Angeli Filho (e mais tarde Adão Iturrusgarai) - reinventou o conceito de comunidade, montando um time de criação totalmente descolado da geração yuppie, praga que mandou no jornalismo durante certo período. Seus cartuns eram solidários, inventivos, libertários e à margem do sistema.

A partir de outubro de 1985, na revista Chiclete com Banana, editados por Toninho Mendes (da Circo Editorial), eles começaram a materializar o sonho de todo cartunista: viver apenas do seu trabalho, sem que a criação fosse um "bico". A revista teve tiragens de até 100 mil exemplares. Cartunistas de todo o País devem ao trio uma certa profissionalização do métier. Mas Villas Boas era ao mesmo tempo resistente à ideia de se tornar domesticado. "Angeli tinha uma coisa de pai, quando chegava no estúdio dele já dizia que eu estava tantos minutos atrasado", resmungava. Pura rabugice, ele amava Angeli e Laerte, tríade de herdeiros de Henfil (com quem conviveram em 1979, quando Henfil viveu em São Paulo).

Em 1987, ganhou a própria revista, Geraldão. Com o passar do tempo, enquanto Angeli e Laerte cederam à tentação do refinamento, ele "enrudeceu", tornando-se ainda mais primário. Falsamente primitivo (talvez o termo mais adequado seja "minimalista") no traço e ultrassofisticado no pensamento, ele usava seu pequeninho e claudicante homenzinho de mil pernas como um aríete das ideias.

Foi o primeiro cartunista do pós-ditadura a ter a coragem de passar marotamente a mão nas nádegas de general. Com isso, mais do que afirmar uma resistência ao regime, buscava tirar o ranço do humor engajado e chamar o escracho para dançar. Os personagens do Glauco foram os primeiros a ter coragem de botar o bilau (e a prochaska) para fora em cadeia nacional. Doparam-se em praça pública. Fizeram swing, cometeram assédio sexual, profetizaram o fim do mundo por alguns trocados.

Há uma tese mais ou menos disseminada de que seus personagens perderam um pouco a graça nos últimos anos. Pode ser. É o mal de todo personagem seriado, perde o fôlego em algum momento. Geraldão, Casal Neuras, Geraldinho, Doy Jorge, Zé do Apocalipse, Dona Marta e Nostravamus podem ter sido atropelados pelos absurdos da realidade. Mas que era magnífico ver o cartum do Glauco injetando caos e deboche no brutal mundo selvagem da política nacional, ah, isso era!

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