Glauco e filho são enterrados sob aplausos

Cerimônia reuniu cerca de 300 pessoas, entre familiares, amigos e seguidores da Igreja Céu de Maria

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2010 | 00h00

O cartunista Glauco Vilas Boas, de 53 anos, e seu filho Raoni, de 25, foram enterrados às 10h30 de ontem no Cemitério Parque Getsêmani Anhanguera, em Osasco, Grande São Paulo. Participaram da cerimônia cerca de 300 pessoas, a maioria familiares, amigos e seguidores da Igreja Céu de Maria, ligada ao Santo Daime, fundada pelo artista.

Em caixões fechados - e cobertos com a bandeira da igreja -, os corpos de Glauco e Raoni chegaram ao cemitério às 9h30. Já eram aguardados por dezenas de pessoas - algumas, dentro do cemitério, gritavam "assassino! facínora!", em referência ao estudante Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, considerado pela polícia o principal suspeito do crime. Nunes estava foragido até o início da noite de ontem.

Durante uma hora, a cerimônia foi conduzida por religiosos da Céu de Maria, trajados com camisas brancas - os homens, em grande parte, com calças também brancas com listras laterais verdes; as mulheres, de saias com detalhes em verde. Comovidos, os seguidores da igreja entoaram dúzias de cânticos rimados, com melodias parecidas umas com as outras. "Não quero nem falar. Perdi dois grandes amigos", disse um dos religiosos, em lágrimas, batendo no peito em sinal de respeito.

Vários cartunistas compareceram à cerimônia. "Existem algumas pessoas que são muito especiais. E Glauco era uma delas. Um iluminado, principalmente pelo trabalho que desenvolveu e fez com que o público passasse a ter outra visão do cartum. Foi responsável por uma reviravolta do humor brasileiro", disse o cartunista Orlando. "É um cara que ia ser um velhinho muito divertido, sem dúvida."

"É como John Lennon. Glauco era um gênio que cruzou com um doido e aconteceu isso", declarou o cartunista Spacca, comparando Glauco com o ex-beatle que foi assassinado em 8 de dezembro de 1980 quando retornava de um estúdio de gravação em Nova York (EUA). "Mas o importante é que ele era uma pessoa sempre disposta a ajudar os outros", disse. Caco Galhardo, outro cartunista que estava presente, visivelmente emocionado não quis falar sobre o amigo.

Entre as dezenas de coroas de flores estavam homenagens de outros cartunistas, como Mauricio de Sousa, e dos profissionais do jornal Folha de S. Paulo, que publicava as tirinhas de Glauco. Representando o jornal, compareceu ao enterro o editor executivo da Folha, Sérgio Dávila, que se lembrou de quando era editor do caderno Ilustrada e tinha uma "convivência bem-humorada" com Glauco. "Ele era um notório atrasador do jornal", comentou. "Mas como o resultado sempre acabava sendo uma surpresa agradável, brincávamos que Glauco era o único que podia atrasar", disse. Dávila afirmou que, em breve, o espaço onde as tiras de Glauco são publicadas será remanejado, em substituição ao cartunista.

Às 10h, uma procissão saiu da sala de velório do Getsêmani Anhanguera, seguindo os caixões até a sepultura. Sempre em coro, os religiosos prosseguiram com as canções. Às 10h10, já em frente ao local do enterro, fizeram um minuto de silêncio, seguido por uma salva de palmas. Depois de mais um canto, o grupo rezou várias ave-marias e pai-nossos. Às 10h25, novas palmas. Estavam enterrados Glauco e o filho Raoni.

Velório. O velório dos corpos do cartunista e do filho ocorreu entre a tarde de anteontem e a manhã de ontem, na sede da Igreja Céu de Maria, em uma chácara em Osasco onde também fica a casa em que Glauco morava com a família. O local abriga uma comunidade baseada no Santo Daime. O acesso foi reservado a familiares e amigos. Na missa, os seguidores da igreja, vestidos com trajes utilizados em rituais, entoaram cânticos. Os jovens eram maioria.

Dois dias antes, na quarta-feira passada, eles haviam se reunido no mesmo local para comemorar os 53 anos do cartunista. Ontem, durante o enterro, a família de Glauco não se pronunciou.

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