Gestante viciada ganha leito exclusivo

Grávidas terão prioridade de atendimento em 10 vagas de hospital psiquiátrico no ABC

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2012 | 03h02

Gestantes dependentes químicas ganharam ontem o primeiro serviço de saúde especializado no Estado de São Paulo. As grávidas terão exclusividade no uso de dez dos 70 leitos do Hospital Psiquiátrico Lacan, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. As pacientes reclamam que, mesmo em clínicas privadas, costumam enfrentar dificuldades para conseguir internação por causa da gravidez.

O uso de drogas por gestantes tem se tornado um grave problema social e de saúde pública, segundo o secretário estadual da Saúde, Giovanni Guido Cerri. Em 2011, 52 bebês nascidos na Maternidade Leonor Mendes de Barros, no Belenzinho, zona leste de São Paulo, por exemplo, foram colocados à disposição da Vara da Infância e da Juventude porque as mães eram dependentes de drogas. Desse total, 67% das mães que rejeitaram os filhos eram usuárias de crack. Em 2008, haviam sido 15 crianças; em 2009, 26; em 2010, 43. Os números estão em um estudo feito pela Secretaria de Estado da Saúde com gestantes usuárias de drogas.

"Trata-se de uma gestação de extremo risco em razão não somente do uso da droga durante o período de desenvolvimento do feto, mas também da condição de vulnerabilidade social e emocional dessas mulheres. Por isso, decidimos criar um serviço diferenciado", afirmou o secretário. Atualmente, São Paulo tem 500 leitos para dependentes químicos em geral. A secretaria informou que pretende criar mais 700 vagas nos próximos dois anos.

Cracolândia. Segundo Cerri, não foi a operação policial no início deste ano na cracolândia que motivou o aumento no número de vagas no serviço público de saúde. E não há estudo no País que aponte qual o número de gestantes usuárias de drogas. Por isso, ele não sabe informar quantas grávidas havia na região central da capital até o início da operação policial.

O secretário explicou que a internação em São Bernardo do Campo é voluntária e as gestantes que ingressarem na clínica já terão passado por outros serviços de saúde. "Espera-se que a resistência ao tratamento e eventuais desistências sejam exceções à regra", disse.

Cada paciente custará ao Estado R$ 6 mil por mês. Segundo a secretaria, a criança fica com a mãe e retorna, após o parto, ao serviço ambulatorial para acompanhamento. O Conselho Tutelar pode ser acionado em alguns casos específicos.

O especialista Dartiu Xavier da Silveira Filho, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), faz ressalvas. "Não deve ser algo isolado. Uma internação pontual é algo para ser adotado numa situação de urgência. O tratamento de dependência é um projeto terapêutico, de longo prazo. Não vejo sentido se não for assim."

Dificuldade. Desempregada, com três filhos entre 3 e 14 anos, a ex-merendeira M., de 34, é usuária de crack desde a adolescência e está na 32.ª semana de gravidez. Ela procurou um ambulatório no Parque Santo Antônio, na zona sul de São Paulo, em busca de ajuda para se livrar do vício. Foi encaminhada há 40 dias para o Hospital Psiquiátrico Lacan, antes da abertura do serviço especializado. "Mesmo cobrando R$ 1.800, clínicas particulares diziam que não podiam me aceitar, porque era muito arriscado."

M. engordou 14 quilos desde que chegou ao hospital. Diz que o trabalho desenvolvido ali a ajudou bastante, mas ressalta que, se fosse levada contra a própria vontade, o tratamento não surtiria efeito. A ex-merendeira vai deixar o hospital na sexta-feira e garante que não voltará às drogas. Ela quer estudar necropsia, mas vai trabalhar como cabeleireira, depois que a filha nascer. M. conta que buscar ajuda por conta própria também serviu para que recuperasse a confiança da família. "Minha irmã, que não queria nem saber da minha bebê, agora até já comprou fraldas."

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.