Imagem Jairo Bouer
Colunista
Jairo Bouer
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Gerenciando mal os riscos

A geração de jovens que mais tem acesso à informação na história está se expondo precocemente a uma série de fatores de risco para a saúde. Essa é umas das principais conclusões da nova fase de divulgação de dados do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), que foi feita na última semana, em São Paulo, pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad) da Unifesp.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

30 Março 2014 | 02h04

O trabalho, realizado em 2012, entrevistou 4.600 pessoas de 149 municípios do Brasil. Desse número, 1.800 eram jovens entre 14 e 25 anos. Cerca de 70% desses jovens tinham idade entre 14 e 17 anos e os outros 30% tinham entre 18 e 25.

Em relação ao álcool, o início do contato foi aos 15 anos e, entre os que já bebem (quase 50% dos jovens), um terço faz uso nocivo (exagerado) ao menos uma vez por semana, o que os colocam mais próximos de comportamentos de risco. Beber após dirigir é um deles. E 30% dos garotos beberam antes de guiar no ano anterior à pesquisa, enquanto um quarto das garotas pegou carona com alguém que tinha bebido.

Apesar da diminuição do número de fumantes nos últimos anos, a pesquisa indicou que 5% dos garotos menores de 18 fumam, assim como 18% dos que têm entre 18 e 25. Entre as garotas, os números foram mais baixos. Quem começa cedo tem grande dificuldade de largar o cigarro. Outros trabalhos mostram que mais de 90% dos fumantes adultos começaram antes dos 15.

Seguindo a alta de consumo de cocaína no País, a experiência com essa droga entre os jovens chamou a atenção. Quase 5% dos garotos inalaram cocaína no ano anterior à pesquisa. As drogas sintéticas de modo geral (balas, doces), que têm hoje um forte apelo junto a esse público, foram usadas por 1% a 2% dos jovens.

Em relação ao sexo, voltou a aparecer a baixa adesão do jovem ao uso consistente da camisinha. Quase um terço dos garotos e 40% das garotas disseram que nunca, ou quase nunca, usam preservativos. É bom lembrar que, sob efeito de álcool e de outras drogas, a chance de se proteger cai ainda mais. Não foi à toa que quase um terço das garotas de 14 a 25 anos já engravidou pelo menos uma vez e que 12% das que têm entre 14 e 20 anos já tiveram uma gravidez interrompida (provocada ou por causa natural).

A pesquisa revelou, ainda, que os jovens estão sedentários, quase 25% deles nunca comem alimentos naturais (saladas) e quase 30% dos avaliados se consideram acima do peso (mulheres mais do que os homens).

A saúde emocional também preocupa. Há indícios de depressão em quase 21% da população jovem entrevistada (com base em uma escala validada no País). Entre as mulheres jovens, esse índice alcançou 28%. Quase 10% já tiveram pensamentos de se matar e cerca de 5% tentaram o suicídio. O suicídio é considerado a terceira causa de mortes de jovens no Ocidente.

Os resultados do II Lenad mostram que, apesar do maior acesso à informação, da maior autonomia que o jovem tem e de uma possibilidade mais ampla de diálogo sobre temas complexos em casa e na escola, a administração dos riscos é precária para uma boa parte deles.

Esse fenômeno talvez possa ser explicado pela precocidade. É como se o comportamento fosse praticado (beber, fumar, usar drogas, fazer sexo sem proteção) antes de o jovem ter maturidade para dimensionar ou calcular os eventuais impactos das suas ações.

Além disso, talvez o comportamento de "correr riscos" (tão característico dessa fase de descobertas e experiências) esteja, de alguma forma, mais autorizado e valorizado por eles mesmos (possivelmente, se espelhando em algumas ações e atitudes dos mais velhos). Nunca é demais lembrar que, se o adolescente já é um ser mais impulsivo, álcool e drogas deixam esse pavio ainda mais curto.

*É psiquiatra

Mais conteúdo sobre:
Jairo Bouer

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.