Wilton Junior/AE
Wilton Junior/AE

Geração do limbo - Ex-jovens do tráfico buscam lugar na ''era UPP''

Com idade entre 15 e 25 anos, aqueles que eram 'amigos dos amigos' dos bandidos vagam por favelas sem escola, trabalho ou rumo

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Eles são fáceis de identificar. Têm entre 15 e 25 anos. Não estudam nem trabalham.Gostam de andar descalços pelas favelas pacificadas no Rio. Adoram soltar pipa. Morrem de saudade dos bailes funks que animavam as noites de sábado e por ora estão vetados. Na época do tráfico, muitos viviam na órbita do crime, fazendo pequenos serviços.

Desde que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPS) restabeleceram o poder sobre o território, eles vagam pelas favelas fazendo um bico aqui outro ali. Mas não conseguem voltar a estudar, nem se encaixam nos projetos que chegam no rastro da pacificação. Formam a geração limbo, na definição precisa do economista Ricardo Henriques, que comanda a UPP Social.

Esses jovens reclamam que recebem "duras" diariamente da polícia. Reagem apedrejando viaturas. Sofrem de uma total falta de perspectiva no futuro. São hoje o grande desafio da UPP Social, encarregada de resolver os problemas das favelas pacificadas. "Eles eram amigos dos amigos do traficante. Viveram num mundo de muita adrenalina e agora caíram nesta situação de transição", define Henriques.

Leandro da Costa, de 18 anos, é o retrato desse desalento. Mora com a mãe e o padrasto em um cubículo na parte mais miserável da Cidade de Deus. Parou de estudar na 5.ª série. Sua expulsão da escola foi espetaculosa. "Joguei o prato de merenda na cara da "Caveirão"", conta, referindo-se ao apelido da diretora.

O ócio só piorou sua vida. Acabou preso em uma incursão da polícia na favela, antes da pacificação. Leandro estava de conversa fiada na boca de fumo quando ouviu os tiros. Saiu correndo, assim como os traficantes. Os bandidos escaparam. Ele penou dois meses em uma instituição para menores. Graças ao empenho da mãe, Kátia, voltou para casa.

A batalha dela agora é manter o filho dentro de casa. "Se ficar à toa na rua, eles (policiais) dizem que está envolvido com o tráfico. Eu falo para ele ficar em casa. Mas ele é de maior, não quer. Fazer o quê, né?" Leandro não sabe o que quer da vida. "Sei lá, talvez ser pedreiro. Tanto faz."

É verdade que as ofertas de trabalho e cursos estão aumentando nas favelas com UPP. Mas Leandro e a turma ficam à margem. Ou por falta de iniciativa ou por falta de escolaridade. Poucos ultrapassaram a barreira dos quatro anos de estudo.

A falta de esperança dessa geração se expressa em números. Pesquisa do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade mostra que em nove comunidades com UPPs existem 3.719 jovens de 15 a 24 anos, que nem estudam nem trabalham.

A capitã Alessandra Carvalhaes, que comanda a UPP da Formiga, reconhece que trabalhar com os jovens é difícil. Na UPP, oferece aulas de esporte, organiza passeios, encaminha jovens para empregos. Só para um dos remanescentes do tráfico já conseguiu quatro empregos. Na semana passada, ele estava desempregado de novo. "Ah, capitã, depois do período de experiência eles me mandam embora." Por que será? "Ele fuma maconha, perde a hora todo dia. Pode botar 20 UPPs que não vai adiantar. Isso é da pessoa."

"Eu quero é ser feliz". Mas há bons exemplos. "Já mandamos 50 jovens para empregos. Uns 25 estão trabalhando. " Alessandra tem a impressão de que a paz garantida pela UPP parece ser suficiente para uma parte desta garotada. "Os jovens que viveram do tráfico só pensam no presente. Sabe aquele funk "eu quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci"? É isso. Parece que para alguns já está bom assim."

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