Genética da felicidade

No último ano, os dinamarqueses foram considerados o povo mais feliz do mundo, de acordo com o Relatório Global da Felicidade. Eles tiveram a mais alta nota na sua taxa de satisfação com a vida, 7,69 em 10! No Eurobarômetro, outro indicador de bem-estar quantificado anualmente, a Dinamarca figura em primeiro lugar desde 1973. De acordo com uma nova pesquisa da universidade britânica Warwick, publicada no jornal Daily Mail na semana passada, a genética, e não apenas as questões econômicas ou sociais, pode ser uma das causas de tanta alegria.

JAIRO, BOUER, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2014 | 02h01

Os pesquisadores comparam a carga genética da população de 131 países com seu índice de felicidade e chegaram à conclusão de que, quanto mais próximo seu DNA estava dos dinamarqueses, maior era sua chance de ser feliz.

A chave do mistério pode estar nos genes que codificam a produção de serotonina, um neurotransmissor envolvido com bem-estar e felicidade.

Na comparação entre os países, mesmo após o controle das variáveis que poderiam influenciar na felicidade de um povo, como PIB (Produto Interno Bruto, que avalia a "riqueza" de uma nação), cultura, religião, geografia e bem-estar social, entre outras, a genética parece ter um peso importante.

Os dinamarqueses teriam menor chance de ter uma versão mais curta de um gene que parece influenciar o nível de insatisfação com a vida. Eles são seguidos, em relação a esse gene, de perto pelos holandeses, quarto colocados no Relatório Global de Felicidade de 2013. A versão mais curta interfere na recaptura da serotonina, um dos transmissores cerebrais envolvidos com a sensação de bem-estar.

O trabalho também encontrou uma correlação positiva entre o nível de felicidade dos atuais cidadãos dos Estados Unidos com a origem de seus ancestrais - ou seja, as linhagens de americanos que tiveram origem nos países europeus mais felizes também relatam uma maior sensação de bem-estar nos dias de hoje. Será que só os genes explicam a felicidade?

Bom lembrar que os brasileiros estão na 24.ª posição no relatório, à frente de países como França, Alemanha e Argentina. Depois da Dinamarca, figuram, em ordem decrescente, Noruega, Suíça, Holanda, Suécia, Canadá, Finlândia, Áustria, Islândia e Austrália.

Outra pesquisa na área da genética que deu o que falar recentemente chegou à conclusão de que os amigos têm um DNA mais parecido entre si do que com estranhos. O trabalho, realizado por pesquisadores das universidades americanas Yale e da Califórnia, publicado no site da BBC News na semana passada, analisou dados de 2 mil participantes e cerca de 500 mil marcadores do genoma humano.

Os resultados mostram que amigos têm 0,1% a mais de proximidade de DNA do que pessoas que não se conhecem. Apesar de parecer muito pouco, é o mesmo grau que se observa entre primos de quarto grau. Só para lembrar, os humanos têm pouco mais de 1% de diferença genética com nossa espécie irmã mais próxima, os chimpanzés.

Muita gente tem criticado os resultados, já que a maior coincidência de DNA pode acontecer porque as pessoas que frequentam os mesmos ambientes ou moram próximas e, portanto, têm mais chances de se tornarem amigas, podem fazer parte de grupos geneticamente mais próximos do que outras que nunca se viram na vida.

De qualquer forma, como tudo que se passa no campo da herança genética, tanto no caso da felicidade nórdica como na situação das afinidades, genes são parte de um complexo processo de interação com fatores ambientais, sociais, culturais e geográficos, que pode determinar características comportamentais. Moral da história: a genética pode explicar parte dessa história, mas, provavelmente, não toda ela.

É PSIQUIATRA

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