Alex Silva/ Estadão
Alex Silva/ Estadão

GCMs barraram moradores de rua de se protegerem da chuva antes de arrastão na Cracolândia, diz padre

Lancelotti diz que moradores de rua foram proibidos de se proteger da chuva em estação; versão oficial é de agressão contra guardas 

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2020 | 22h05

O padre Julio Lancellotti, da Pastoral Povo da Rua, afirma que o arrastão registrado na Cracolândia aconteceu após guardas-civis impedirem que usuários de droga ficassem sob a marquise da Estação Júlio Prestes para se proteger da chuva de granizo que atingia o centro de São Paulo. O relato contraria a versão oficial de que o tumulto teria iniciado porque dependentes químicos agrediram GCMs.

O episódio mais recente de conflito na Cracolândia aconteceu na tarde de terça-feira, 8. Um grupo que estava no entorno da Praça Princesa Isabel depredou ao menos seis veículos, invadiu carros e saqueou motoristas.

O tumulto durou cerca de 20 minutos até ser controlado pela Polícia Militar, que mantém uma base na área e também atuou no conflito, sem que ninguém tenha sido preso. Na região, comerciantes dizem ainda temer novos ataques. 

O arrastão foi filmado por testemunhas. “O que está sendo divulgado é só uma parte da narrativa”, diz o padre Julio Lancelotti, que atua no acolhimento de moradores de rua, entre eles frequentadores da Cracolândia. “Quando começou a chuva, muitos procuraram proteção na marquise da Júlio Prestes, mas a GCM (Guarda Civil Metropolitana) atacou para que não entrassem.”

Nas redes sociais, ele publicou vídeo que reforçaria a versão, mas não flagra o suposto ataque da GCM. As imagens mostram guardas-civis protegendo a Estação, que fica perto do “fluxo”, onde os usuários de drogas se concentram. Ao fundo, é possível ouvir o som aparentemente de bomba.

Para ele, o episódio não justifica o ataque contra motoristas, mas precisa ser considerado na busca por soluções. “O tratamento violento gera resposta violenta. Precisamos entender por que chegamos a um ponto tão dramático”, diz. “Chama a atenção que a Polícia Militar estava a 100 metros do local do arrastão. Pessoas eram atacadas e havia um crime acontecendo. Por que não interveio?”

Secretário executivo da PM, o coronel Alvaro Batista Camilo defende que a atuação foi “rápida”, embora os policiais não tenham conseguido pegar os criminosos em flagrante. Ontem, um inquérito foi instaurado para identificar os autores, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP).

“A polícia já está capilarizada e, quando foi acionada, rapidamente colocou ordem. Entre o começo da ação e tudo ser restabelecido, durou cerca de 20 minutos”, afirma. “O arrastão não visava as pessoas e ninguém ficou ferido. Eles queriam os bens, principalmente celular, para trocar por drogas.”

Segundo ele, o efetivo policial e o patrulhamento direto também foram reforçados após o caso. Dados da pasta mostram, ainda, mais de 1.270 prisões na Cracolândia nos últimos dois anos, além da apreensão de 3,6 toneladas de droga e 15 armas de fogo.

“O problema da Nova Luz é complexo. Se fosse simples, já estava resolvido”, diz Camilo. “Não é um problema só de polícia, precisa de um trabalho conjunto da área de Assistência Social e de Saúde no tratamento e acolhimento dessas pessoas.”

Em nota, a Secretaria de Segurança Urbana, responsável pela GCM, diz que o “fluxo” havia sido transferido da Rua Dino Bueno para a Alameda Cleveland, por retirar materiais de demolições em uma quadra da região. “A ação foi informada e combinada previamente”, diz.

A pasta contesta a versão do padre. “A GCM iniciou a operação, que ocorria dentro da normalidade, no entanto, um grupo de frequentadores passou a arremessar pedras, paus e outros objetos na direção dos agentes públicos. A injusta agressão precisou ser contida para preservar a segurança de todos na região.” Também segundo a pasta, a GCM “reforçou o policiamento fixo” e “intensificou as rondas” na área.

Medo

Comerciantes da área se dividem entre medo e resignação. “A sensação é horrível, a gente vive inseguro”, diz uma lojista, que não quis se identificar. “Precisa ter alarme e barra de ferro na porta porque é daqui que tiro meu sustento.”

Trabalhando perto do local do arrastão, Leonardo da Silva, de 47 anos, diz já estar “bem acostumado”. “Não pode deixar nada fácil porque levam.”

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