Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Marcelo Godoy e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - A gestão do coronel Álvaro Camilo no Comando-Geral da Polícia Militar (2009-2012) registrou alta de 209% dos gastos efetuados pelo Departamento de Suporte Administrativo (DSA), órgão no centro das fraudes investigadas na Operação Imperador, a chamada Lava Jato da PM. No ano em que Camilo deixou a corporação, os gastos do setor caíram de R$ 34,2 milhões para R$ 6,2 milhões, média que se mantém até hoje.

O ex-comandante-geral é hoje deputado estadual pelo PSD, partido presidido pelo ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab. Em 2008, antes de o coronel assumir o comando da PM paulista, o DSA havia consumido R$ 11 milhões. Os gastos do departamento na gestão de Camilo seriam atípicos. Segundo a Corregedoria da PM, as fraudes e os desvios no DSA podem chegar a R$ 200 milhões.

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Durante parte da gestão de Camilo, o DSA era chefiado pelo tenente-coronel José Afonso Adriano Filho, que está preso e negocia delação premiada com o Ministério Público Estadual (MPE). Na tratativa, ele tenta envolver Camilo como um dos beneficiários dos desvios, sustentando que era impossível ter agido sozinho. “Cumpri ordens do Comando-Geral”, chegou a dizer em depoimento à Justiça. O deputado nega. 

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As informações sobre a elevação dos gastos da DSA foram extraídos do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafem) do governo estadual. Responsável pela manutenção do quartel do Comando-Geral e outras unidades vizinhas, no centro da cidade, o DSA ganhou outras atribuições no período, passando a fazer licitações para peças de viaturas e reformas de outras unidades da corporação. Em 2012, essas responsabilidades foram novamente alteradas para restringir sua atuação ao quartel do comando.

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“Os gastos do DSA geralmente são contas de água e luz, limpeza, manutenção dos prédios do comando e os anexos vizinhos”, explica o coronel Benedito Roberto Meira, que comandou a PM de novembro de 2012 até janeiro de 2015. “A diferença foi que retiramos a atribuição de a DSA mexer com verba para reparo de viaturas, que representava a maior parte dos gastos, direcionando para o órgão que acreditávamos ser o mais cabível, o centro de manutenção de viaturas”, disse. 

Meira diz que, quando assumiu o comando, encontrou em andamento a sindicância aberta por Camilo sobre os desvios do DSA, mas enxergou a necessidade de aprofundá-la em razão da “infinidade de irregularidades” apontadas na apuração inicial. “Era necessário que outras pessoas fossem ouvidas e o coronel (Levy) Félix conduziu essa investigação.” Félix, então tenente-coronel, seria promovido a coronel e designado na sequência para ser o corregedor da PM. Foi ele quem prendeu o tenente-coronel Adriano em março deste ano.

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A reportagem questionou Camilo quanto às mudanças de atribuições da DSA e a elevação dos gastos, agora postos sob suspeita. A Corregedoria acredita que boa parte dos serviços licitados com empresas de fachada nunca foram devidamente efetuados. Camilo não responde a essas perguntas. Em nota, reforçou que foi ele o responsável por abrir “imediatamente”, em 2011, apuração do caso do tenente-coronel Adriano.

“O coronel Camilo, como comandante-geral, afastou o ex-PM de suas funções, o transferiu de unidade e a apuração iniciada por Camilo culminou na perda de posto, patente e salário do ex-oficial, que age agora por pura vingança”. Em agosto, o Tribunal de Justiça Militar determinou a perda da patente de Adriano, que vai recorrer da decisão. Camilo destaca que Adriano tenta “criar ilações para obter vantagens no processo”.

Alckmin: apuração será ‘rigorosa’

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse nesta sexta-feira, 6, que será “rigorosa” a apuração sobre o suposto esquema de corrupção na Polícia Militar paulista. 

“A Corregedoria da Polícia Militar já está investigando, o tenente-coronel (José Afonso Adriano Filho) já está preso e a investigação será rigorosa tanto da Polícia, como do Ministério Público”, afirmou ele, durante agenda . / COLABOROU ISABELA PALHARES

Assista ao depoimento do tenente-coronel José Afonso Adriano Filho

‘Eu não lia o que assinava’, diz capitão acusado na Lava Jato da PM

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Marcelo Godoy e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - O tenente-coronel José Afonso Adriano promete entregar informações sobre supostas irregularidades ocorridas em três licitações feitas pela Polícia Militar que envolviam a compra de Palios Weekends ELX, peças para carros e tablets. Juntas, elas teriam representado contratos de R$ 100 milhões. Adriano relaciona o nomes de dois coronéis da reserva e um da ativa da PM às supostas irregularidades. Além deles, outro coronel está sendo investigado.

A Corregedoria da PM está avaliando a evolução patrimonial dos oficiais - um dos quais tem uma casa no condomínio Terras de Santo Antonio, em Itu, no interior paulista, o mesmo em que Adriano tem um imóvel. Também está auditando os contratos dessas e de outras licitações feitas pela PM. Caso apresente provas do que diz saber, a colaboração do coronel Adriano pode fazer a Operação Imperador - a Lava Jato da PM - se expandir, atingindo, além dos contratos do Departamento de Suporte Administrativo (DAS), licitações feitas na Diretoria de Apoio Logístico da PM e do Centro de Suprimentos de Materiais de Telecomunicações.

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Por enquanto, 16 policiais já foram indiciados e dois processos abertos - Adriano, que está preso desde 9 de março. Ao todo, 5 mil contratos são investigados, envolvendo 523 empresas. Os processos fraudulentos de compras eram feitos no DSA, órgão do Comando-Geral da PM. Mas era no Grupo de Planejamento Setorial (GPS), da Secretaria da Segurança Pública, que o dinheiro era liberado irregularmente. 

Nesta sexta-feira, 6, Adriano acompanhou os depoimentos de um major da Corregedoria da PM e de uma testemunha - Miriam Francioni dos Santos, que era apontada pelas investigações como uma das laranjas de Adriano. Miriam fechou um acordo de delação premiada com o Ministério Público Estadual (MPE). Ela é irmã de outro suposto laranja de Adriano, o comerciante Márcio Luiz dos Santos.

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Ela contou que o coronel comprava carros em seu nome e no dos familiares dela para entregar a outros militares supostamente envolvidos no esquema. Também teria usado contas bancárias de sua família para movimentar recursos. Dinheiro desviado teria ainda custeado a reforma das casas de dois coronéis, entre eles um dos 18 que Adriano citou na carta com a qual iniciou a negociar sua delação com o MPE.

Assista ao depoimento do tenente-coronel José Afonso Adriano Filho

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Marcelo Godoy e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Peça-chave no escândalo da Lava Jato da PM, o comerciante Márcio Luiz dos Santos afirmou ao depor na Justiça Militar que o tenente-coronel José Afonso Adriano Filho o ameaçou de morte: “Bico calado, que aqui você está mexendo com peixe grande”. Santos entendeu que a ameaça era “agravada pelo fato de lidar com policiais”. O comerciante havia vendido para o coronel uma empresa - a Contruworld - usada no esquema de fraudes.

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Santos contou que estava quebrado quando o coronel lhe fez a proposta de comprar a empresa. “Não tenho crédito em lugar nenhum. Meu carro é um Logan 2008.” A empresa foi vendida por R$ 5 mil, mas não foi passada para o nome de Adriano. “Ele (o coronel) sabia que eu estava falido. Foi tudo verbal.”

De acordo com Santos, o coronel passou a usar então a Construworld. “Eu ficava com os talões (de cheques). Tudo assinado.” Por causa da ameaça a Santos, Adriano teve a prisão preventiva decretada pela Justiça Militar. O advogado do tenente-coronel, Luiz Antonio Nunes Filho, nega que seu cliente ameaçado as testemunhas. 

A Construworld fechou 207 contratos para obra na PM. Eles foram considerados irregulares pelo Ministério Público Estadual, que denunciou Adriano e o capitão Dilermando César Silva. O capitão nega ter ficado com recursos do esquema. Ao depor, disse ter assinado documentos sem ler.

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