Gasto com compra de fuzis para polícia de SP cresce 73 vezes entre 2015 e 2017

Gasto com compra de fuzis para polícia de SP cresce 73 vezes entre 2015 e 2017

R$ 11,5 mi gastos: número e destino das armas, com alcance de um quilômetro, são sigilosos

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Os gastos do governo de São Paulo com a compra de fuzis para as polícias neste ano já são 73 vezes maiores do que os realizados nos últimos dois anos. Em 2017, foram R$ 11,5 milhões investidos nesse tipo de armamento pesado, ante R$ 155 mil gastos em 2015 – em 2016, não houve compras. Os dados são da Secretaria Estadual da Fazenda, disponíveis no Portal da Transparência.

A Secretaria Estadual da Segurança Pública afirma que as compras não fazem parte de nenhum plano diferenciado do governo e o armamento está sendo distribuído para batalhões especiais do Estado. Mas ocorrem em meio ao avanço dos crimes contra o patrimônio – os roubos, por exemplo, estão em alta há cerca de dois anos – e a ações de grande impacto, como assaltos a transportadoras de valores mediante fechamento de ruas e queima de carros. No primeiro trimestre do ano, os casos de roubo a banco tiveram aumento de 20% no Estado – de 28 para 35 casos na comparação com o mesmo período do ano passado. Já os casos de roubo de carga cresceram 22%, de 2.152 para 2.762 registros.

O número exato de armas recebidas não é revelado pela PM, se valendo de regras de sigilo impostas à Lei de Acesso à Informação há um ano pelo ex-secretário Alexandre de Moraes, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Também não se informou onde exatamente o material seria distribuído. A alegação é de que as informações são estratégicas. 

O atual secretário da Segurança, Mágino Alves, afirma que “a polícia precisa estar bem equipada”, mas que não há nenhuma mudança de diretrizes no sentido de reforçar o uso de fuzil. Ele cita, no entanto, os casos de explosões de caixa eletrônico como delitos que requerem mais atenção do poder público. “O que houve foi uma disponibilidade de recursos e então fizemos a compra”, disse Alves. “Em 2014, por exemplo, compramos veículos blindados para o Batalhão de Choque.”

As armas compradas são da empresa Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel), estatal vinculada ao Ministério da Defesa, e foram desenhadas em parceria com o Exército. Elas têm poder para disparar um tiro a até mil metros de distância. 

Preocupação. O porte desse armamento, por si, não é alvo de críticas dos especialistas consultados pelo Estado. A ressalva é quanto à forma de uso. O presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, afirma que se esses equipamentos forem distribuído nos batalhões especiais, que ficam aquartelados e só são acionados em situações atípicas, não há problemas mais graves. “Agora, se forem usados como equipamento padrão, para o uso cotidiano, podemos ter efeitos ruins, como acontece no Rio, onde o fuzil é um equipamento padrão.”

Para ele, o uso do fuzil nas ações cotidianas estimula o enfrentamento e, como consequência, a violência. “O que está sendo anunciado pelo governo está correto, o que precisa agora é saber se o que vai acontecer na prática é a mesma coisa que está sendo anunciada”, diz.

Já o coronel da reserva da Polícia Militar e consultor da área de segurança José Vicente da Silva Filho afirma que “a polícia precisa estar equipada” para casos de confrontos mais sérios, destacando os grandes assaltos a bancos e transportadoras que têm ocorrido no Estado. “Com os acordos de paz entre o governo da Colômbia e as FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), temos uma grande quantidade de armamento sem uso naquele país. Há uma tendência de que esse armamento inunde outras regiões, como o Brasil, e já temos visto armas mais pesadas no Rio, por exemplo”, cita o militar, ao argumentar que as forças de segurança precisam ter formas de responder.

Para lembrar. Como o Estado mostrou na sexta-feira, o Primeiro Comando da Capital (PCC) implementou um modelo semelhante ao da concessão de franquias para comandar o tráfico de drogas na Cracolândia, no centro de São Paulo. Além disso, imagens gravadas por câmeras de segurança da GCM e por policiais infiltrados mostram que agora os traficantes estão usando armas pesadas, como submetralhadoras, e não fazem questão de escondê-las. 

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José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2017 | 03h00

SOROCABA – Acostumado a lidar com furtos, tráfico de drogas e brigas de bar, o cabo PM Leite, viveu momentos de impotência na madrugada do dia 23, quando recebeu um pedido de reforço da Polícia Militar de Pilar do Sul, no interior de São Paulo. Cerca de 20 homens armados com pistolas e fuzis invadiram a cidade, aterrorizaram a população atirando a esmo e explodiram três agências bancárias. Leite e um colega patrulhavam o bairro Campo Largo, na vizinha Salto de Pirapora, e acudiram ao chamado.

 Na entrada da cidade, cruzaram com um dos carros usados pelos assaltantes. “Eles apontaram as armas pelas janelas (do veículo) e dispararam. Tivemos de parar a viatura e descer para nos proteger atrás dela”, contou. Os disparos de fuzil perfuraram o veículo oficial. Os policiais portavam revólver e pistola, armas curtas. Os criminosos fugiram.

Quase duas semanas após o assalto, o clima ainda é de medo e tensão na cidade de 30 mil habitantes. Na vitrine de uma loja do centro, um manequim exibe as perfurações de balas e estilhaços. As marcas dos tiros de fuzil ainda estão na parede da igreja matriz do Bom Jesus do Bom Fim. “Foi muito tiro, tiro, tiro, gente correndo para todo lado. Era madrugada de domingo e tinha muita gente na rua. Eu e meu marido estávamos próximos e vimos gente correndo para se esconder de medo até no cemitério. Houve vários estrondos”, conta a dona de casa Valéria Proença.

O borracheiro Paulo Cesário Lica viu os criminosos atirando contra um transformador de energia, antes de explodirem o Banco do Brasil. “Na fuga, eles entraram numa rua sem saída no bairro Colina e, quando voltaram, já tinha um monte de gente na rua. Um deles pôs a arma para fora e disparou, foi só correria, um Deus nos acuda.” O óleo do transformador vazou e o equipamento teve de ser trocado. A agência do Banco do Brasil estava passando por reforma por causa de outro ataque em abril do ano passado.

Também foram alvos as agências do Santander e do Bradesco. “Essa foi a terceira vez e logo não terá mais banco aberto aqui na cidade”, disse o ex-vereador Carlos Roberto de Barros. Durante o mandato, ele apresentou projeto na Câmara para instalar câmeras de monitoramento na cidade, mas não conseguiu a aprovação. Depois da sequência de ataques, duas agências estão fechadas e a terceira funciona parcialmente. Moradores são obrigados a se deslocar para Salto de Pirapora e São Miguel Arcanjo para sacar dinheiro e fazer depósito.

O Banco do Brasil e o Santander informaram que as agências passam por reformas e não há prazo para a reabertura. Comerciantes temem prejuízos no Dia das Mães. “Parte da população não tem acesso a cartões e muitos, principalmente da zona rural, fazem pagamento em dinheiro”, disse Marisa Tavares de Carvalho, dona de lojas de roupas.

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