Garota diz que sofreu abuso em prisão

Polícia do Pará abriu inquérito para investigar denúncia de que três menores teriam passado 4 dias com presos em colônia agrícola

CARLOS MENDES , ESPECIAL PARA O ESTADO, BELÉM, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2011 | 06h04

A polícia do Pará abriu inquérito para apurar a acusação de T., de 14 anos, de que ela e outras duas menores foram drogadas, embriagadas, espancadas e violentadas durante quatro dias por detentos dentro da Colônia Agrícola Heleno Fragoso, no Complexo Penitenciário de Americano, em Santa Isabel do Pará, a 50 km de Belém.

A jovem fez a denúncia no sábado, depois de fugir da penitenciária e pedir ajuda a soldados da Polícia Militar que estavam em uma viatura na BR-316. Segundo T., ela foi levada à Colônia Agrícola por uma mulher conhecida por Ane, que a polícia tenta localizar. As outras duas menores não foram encontradas em uma varredura feita no presídio por agentes penitenciários.

O governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), mandou exonerar o diretor da instituição penal, Andrés de Albuquerque Nunes, e 18 agentes que estavam de plantão no sábado.

A garota prestou depoimento e em seguida foi levada ao Centro de Perícias Científicas Renato Chaves para exame de corpo de delito. Depois, foi encaminhada a um abrigo do Estado, onde a receberá apoio psicológico e atendimento médico.

"Perdi a conta de quantos homens fizeram isso comigo", disse T. durante depoimento à Divisão de Atendimento ao Adolescente (Data). Ela afirmou que no dia 12 foi abordada por Ane em uma praia do distrito de Outeiro, na Grande Belém. A menina fugiu de casa em junho e estava com um namorado.

Segundo o depoimento de T., Ane convenceu-a a ir até a Colônia Heleno Fragoso para uma "diversão". Na primeira vez, ambas entraram em uma mata nos fundos da penitenciária. Lá existe um igarapé, frequentado por moradores para tomar banho e por detentos que cumprem prisão em regime semiaberto para consumir drogas, bebidas e encontrar prostitutas.

Enquanto caminhavam, a menor disse ter ouvido Ane falar ao celular com um homem conhecido por Faísca, que seria detento. A menina teria mantido relação sexual com ele. Os dois e Ane passaram a noite às margens do igarapé. Ao voltar ao local pela segunda vez, a menor afirmou que Ane deixou-a sozinha. Apareceram vários detentos e a levaram para dentro da penitenciária, onde ela teria permanecido por quatro dias. "Eu não sabia que ali era um presídio", acrescentou.

De acordo com T., os detentos deram-lhe bebida alcoólica com suco e obrigaram-na a consumir cocaína e maconha. "Fiquei completamente dopada e começaram a tirar a minha roupa. Pedia para que eles parassem, mas não adiantou nada, não pude fazer nada para impedir." Ela conseguiu fugir porque os presos estavam drogados. T. disse que viu outras duas meninas também sofrerem violências físicas e sexuais de outros presos, mas não soube dizer seus nomes.

Entidades defensoras dos direitos de crianças e adolescentes definiram a situação de T. como "intolerável", adiantando que o Estado deve ser processado pelo que aconteceu.

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