Gangue desviava cartões bancários dos Correios

Empresários, comerciantes e funcionários terceirizados e de carreira estão entre os 36 presos na operação da Polícia Federal

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2011 | 03h03

A Polícia Federal desarticulou ontem organização criminosa que desviava cartões de crédito da Caixa Econômica Federal de dois centros de triagem dos Correios. A PF mobilizou 250 agentes e delegados para executar a Operação Crédito Fácil e cumprir 42 mandados de prisão - 36 suspeitos foram capturados na Grande São Paulo e em duas cidades do interior, Limeira e Itapetininga. Os federais vasculharam 58 endereços munidos de mandado de busca.

Entre os acusados estão empresários, comerciantes, três servidores de carreira dos Correios e dois funcionários terceirizados. A PF estima que, entre janeiro de 2010 e outubro de 2011, o grupo realizou 2.500 transações e amealhou R$ 4 milhões com cartões da Caixa, desbloqueados fraudulentamente. O valor "pode triplicar" se computadas as fraudes com cartões de outros bancos.

A juíza Paula Mantovani Avelino, da 1.ª Vara Criminal Federal, decretou o sequestro de ativos financeiros e veículos dos investigados. Paula autorizou a Crédito Fácil após examinar os argumentos da PF. Ela ordenou o bloqueio de contas bancárias dos investigados até o montante de R$ 1 milhão em cada uma.

A Crédito Fácil foi comandada pelos delegados Inacy Pereira de Jesus e Fabrício de Souza Costa. O inquérito 0069/2011-1 revela os movimentos de três grupos que atuavam com cartões obtidos nos Centros de Tratamento de Encomendas dos Correios no Jaguaré, Saúde e Vila Carrão. "Crédito Fácil não é uma ação isolada, estão sendo mapeadas diversas quadrilhas", destacou Pereira de Jesus.

A PF descobriu que um alvo, Antônio Lúcio de Souza, o Japa, possuía senhas de cadastros reservados do governo, como Infoseg e Dataprev.

No Núcleo Jaguaré, agia o servidor dos Correios Davi Francisco de Souza, que, segundo os policiais, usava "as facilidades decorrentes de seu emprego para subtrair cartões de crédito".

Na prisão. Davi foi preso em 26 de março, com seu irmão Oziel, também empregado dos Correios. Eles foram flagrados quando carregavam veículos com mercadorias adquiridas com os cartões extraviados. Davi confessou que se valia da função de carteiro. Na prisão continuou em ação, usando o celular de um colega de cela.

Relatório de Inteligência da PF assinala que Davi, entre 7 de janeiro e 27 de março deste ano, fez por um celular 210 ligações para desbloqueios e consultas de cartões desviados. Por outro aparelho efetuou 32 ligações só em fevereiro. A PF interceptou telefonema de Japa, em 23 de julho. Ele oferece "salário de cem mil" a quem conseguir "mandar 80 cartões por semana".

A PF apurou que os investigados utilizavam os cartões para comprar mercadorias e transferir dinheiro para contas beneficiárias ou pagar contas de terceiros, recebendo porcentagem.

Um diálogo interceptado pelo sistema Guardião da PF mostra dois integrantes da organização tratando de crédito antecipado. Um homem, identificado como Alemão, diz a seu interlocutor que "tem uma máquina que antecipa crédito". Outro integrante da organização, Alexandre Saldanha de Oliveira, simulava voz de mulher para desbloquear cartões, como em ligação gravada pela PF no dia 26 de maio.

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