Galpão abandonado vira reduto de 'noias'

Imóveis desocupados são transformados em abrigos clandestinos

Diego Zanchetta e Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2010 | 00h00

Antigo galpão de viação é usado por dependentes da cracolândia e empresas de ônibus irregular

Desocupado há quatro meses, o número 1.000 da Avenida Rio Branco, no centro, foi transformado em um abrigo clandestino de dupla utilidade. Nos fundos do imóvel, usuários de drogas da cracolândia improvisaram um dormitório coletivo, onde também conseguem estocar montanhas de sucata para revenda. Já o lado de fora foi ocupado pela Alan"s Turismo, uma empresa ilegal que freta oito ônibus diários, para o Nordeste e a Bolívia, a apenas R$ 30 por pessoa.

O cenário de degradação é a ponta mais visível de anos de abandono de imóveis na região central de São Paulo. A ocupação de prédios ociosos como esse, por meio do IPTU progressivo e de possíveis desapropriações, é considerada por urbanistas etapa essencial no projeto de revitalização do centro. Além de levar "vida" à região, a iniciativa teria outros efeitos positivos para a cidade, como amenizar a superlotação do transporte público, agravada pela necessidade diária de deslocamento dos paulistanos dos bairros periféricos para a área central, onde estão as vagas de emprego.

Segundo moradores e comerciantes vizinhos, o avanço da degradação do espaço na Avenida Rio Branco, localizado bem na frente do terminal de ônibus da Praça Princesa Isabel, é ignorado pelos PMs e fiscais da Subprefeitura da Sé que trabalham na região. Os ônibus, todos em péssimo estado, ficam o dia inteiro estacionados na frente do imóvel. Os pedestres que passam pela calçada nem chegam a ver os fundos tomados pelos "noias".

Vazio. O galpão tem 12 mil metros quadrados e está na chamada Nova Luz, a região em processo de revitalização pela Prefeitura. O tamanho é suficiente para uma empreiteira construir um prédio com 150 apartamentos populares de 48 m². Por duas décadas, a Viação Andorinha manteve uma garagem no imóvel, que no ano passado virou depósito de bebidas. Em fevereiro, o comércio fechou e, um mês depois, o proprietário morreu.

"Está tudo abandonado, nenhum herdeiro assumiu. E o pessoal dos ônibus clandestinos tomou conta. Isso ajudou os viciados, já que ninguém vê eles nos fundos", reclama Raul Pires, de 56 anos, morador do prédio que divide parede com o local invadido. Ele disse ter cansado de ligar para a PM denunciando a invasão do local. "Parece cômodo deixar esses coitados escondidos dos olhos da população", diz.

A reportagem entrou no local nos últimos dois dias e conversou com seis dependentes, moradores de rua da cracolândia, que improvisaram um dormitório na antiga garagem. "Aqui a gente tenta se esconder dessa PM que só bate na gente. Saí de casa há oito meses, cansei de apanhar na rua. Aqui eu tento descansar um pouco", diz Marcelo Speranfino, de 34 anos. "Não consigo ficar sem pedra."

Responsável pelo policiamento da área, o coronel da PM Antônio Luiz Bazela disse desconhecer a invasão. "Amanhã (hoje) mesmo já estarei tomando as providencias." A PM afirma ainda que vai verificar se há ônibus clandestinos no local. A Prefeitura diz que o responsável pelo local é o dono.

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