Galinhada vira tumulto no Minhocão

Sem comida para todo público, barraca do chef Alex Atala, a mais esperada da Virada, teve empurra-empurra e confusão no centro

ARTUR RODRIGUES , LUCINÉIA NUNES, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2012 | 03h03

"Queremos galinhada, queremos galinhada", gritava a multidão de milhares de pessoas sobre o Elevado Costa e Silva, o Minhocão, logo no início da madrugada de ontem. A sala de espera a céu aberto para provar do prato elaborado por Alex Atala, chef do D.O.M., considerado o 4.º melhor restaurante do mundo, não tinha um pingo de glamour. Não faltou empurra-empurra, palavrão e até pancadaria na abertura do evento Chefs na Rua, uma das atrações da Virada Cultural.

"Pessoal, pessoal, as 500 senhas acabaram", gritou o produtor Maurício Schuartz, para depois receber uma sonora vaia. Na fila, gente que estava ali havia várias horas não entendia como as senhas haviam sido distribuídas sem que ninguém visse.

Grávida de 6 meses, a autônoma Marli Albino, de 37 anos, resolveu esperar mais um pouco, pelo menos enquanto o desejo por galinhada não passasse. "Estou aqui desde às 21 horas e não recebi senha. Vou tentar descobrir o que está acontecendo."

Inicialmente, segundo a produção, a entrada do público no Minhocão seria limitada e se daria apenas pela Rua Helvétia. No entanto, as demais entradas bloqueadas foram invadidas. "Até minha equipe apanhou, um produtor tomou um soco", afirmou Shuartz.

Com o clima tenso e quente e a barraca da galinhada cercada de um público enfurecido, os pratos gratuitos começaram a ser distribuídos, não necessariamente a quem chegou cedo e tinha a senha na mão.

A primeira a receber a galinhada foi a professora aposentada Cecília Russo, de 74 anos. Ela foi cercada por jornalistas de TV, para os quais exibia a caixinha branca com arroz, frango e farofa. "Uma delícia. Alex Atala faz jus à fama", dizia ela, que chegou às 22 horas ao local, pegou a senha e enfrentou o tumulto antes de pegar seu "troféu".

"Isso aqui está frio", disse o representante autônomo César Antônio Sanches, de 48 anos. Com mais de 1,90 metro, ele conta que havia chegado dez minutos antes e se aproveitou da muvuca para sair com o jantar. "Pegou quem soube ser mais esperto. Meti a mão lá e peguei no lugar de alguém", afirmou, sem parar de comer.

O chef Junior Bellintani, de 33 anos, que foi ao evento com sua roupa de trabalho, disse que gostou do prato, mas que esperava algo mais requintado. "É uma galinhada comum", disse.

Sem saber o que se passava, os curiosos se somaram aos famintos. "É yakissoba?", perguntava um menino sobre o ombro do pai. Uma mulher pediu uma folha do bloquinho de um repórter para tentar conseguir um autógrafo de Alex Atala. Ela voltou para casa de estômago vazio e com o papel em branco, uma vez que o badalado chef não conseguiu chegar à barraca por causa da confusão.

Quando a panela da galinhada esvaziou, por volta das 2 horas, os cozinheiros aplaudiram o público, que foi se dispersando, após ouvir o anúncio de que haveria sopa de cebola, feita pelo chef francês Erick Jacquin, só depois das 4 horas. "Nos programamos para receber 500 pessoas e vieram 5 mil. Servimos 600 galinhadas. Foram cem a mais do que o programado", disse Schuartz.

Filas. Depois da confusão na madrugada, o dia de ontem no Minhocão foi mais tranquilo, apesar das filas enormes nas barracas para comprar e pegar a comida. Uma reclamação que se tornou recorrente.

Por volta do meio-dia, o pequeno trajeto entre as barracas era quase intransitável e permaneceu assim por toda a tarde. "As barracas poderiam estar mais distantes", observou a professora Suzana Romera, de 48 anos.

"As comidas são gostosas, mas a organização deixou a desejar", afirmou a pesquisadora Ana Passos, de 36 anos. "Esperei mais de 30 minutos na fila para comprar bolinho de bacalhau", disse a psicóloga Letícia Milner, de 39 anos. Houve quem tenha esperado até uma hora para comer o cachorro-quente do chef Raphael Despirite, do restaurante Marcel. "Um dos problemas da demora é que a energia elétrica está falhando", contou o chef.

Heloísa Bacellar, chef do Lá da Venda, também teve problemas. "Cheguei às 3h30, mas só ligaram a energia às 9 horas. Quando o evento começou, não conseguia servir café nem pão de queijo", contou a chef, que também questionou a falta de banheiros na extensão do Minhocão.

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