Gaiarsa, crítico da família tradicional, morre aos 90 anos

Morreu ontem aos 90 anos o psicanalista José Angelo Gaiarsa. Segundo a família, ele faleceu por volta das 5 horas, enquanto dormia. Seu corpo foi velado no Cemitério São Paulo; o enterro será na manhã de hoje no Cemitério Assunção, em Santo André, cidade onde nasceu.

, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Gaiarsa nasceu em 19 de agosto de 1920, estudou Medicina na Universidade de São Paulo e especializou-se em psiquiatria. Clinicou por 50 anos e escreveu mais de 30 livros sobre família, sexualidade e relacionamentos. Foi o responsável por trazer ao País as ideias do psicanalista austríaco Wilhelm Reich, um dos ideólogos da revolução sexual.

Durante dez anos, de 1983 a 1993, Gaiarsa apresentou um quadro em um programa diário da TV Bandeirantes em que respondia, ao vivo, dúvidas dos telespectadores. Ficou conhecido por suas posições polêmicas: defendia o relacionamento aberto, questionava a ideia de a maternidade ser uma maravilha absoluta e condenava a instituição do casamento e da família. "Ouvi por mais de 30 anos reclamações sobre filhos, mães, pais, cunhadas etc.", costumava dizer.

O psiquiatra se casou e se separou cinco vezes. A primeira união seguiu os moldes convencionais - ficou 25 anos ao lado da mulher, teve quatro filhos e oito netos. Nos relacionamentos subsequentes, pôs em prática a ideia do amor livre, vivendo relacionamentos abertos. Não acreditava na monogamia, mas costumava dizer que o amor livre funcionou melhor para as ex-mulheres que para ele próprio.

Mesmo após abandonar o consultório, nunca deixou de trabalhar. Em 2009, lançou Formando Agentes de Transformação Social, sua última obra. Atualmente revisava Respiração e Angústia, publicado em 1971, para uma reedição pela Summus Editorial.

Na página que mantinha na internet, Gaiarsa escreveu: "Tive a sorte - e o azar! - de viver quase todo o século 20 (...)". No texto de sua autobiografia, descreve-se como alguém que viveu por muito tempo acompanhado da angústia e do medo. Mas, no fim, considera esses sentimentos positivos e "mais que justificados". "Meu medo neurótico era muito mais verdadeiro do que minha sabedoria de pessoa normal, de cidadão bem adaptado", afirmou Gaiarsa.

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