Funk vira polêmica em Paraitinga

Cidade terá festival de músicas não tradicionais

Reginaldo Pupo, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2013 | 02h02

SÃO LUIZ DO PARAITINGA - Acostumados a ouvir as tradicionais marchinhas carnavalescas que tornaram a cidade de São Luiz do Paraitinga famosa em todo o Brasil, muitos foliões devem estranhar neste ano músicas que não fazem parte do repertório tradicional.

Samba, música eletrônica e até funk também serão ouvidos nos quarteirões da cidade do Vale do Paraíba em um projeto de uma cervejaria para a folia que há décadas atrai cerca de 150 mil turistas por ano. A descaracterização da festa, no entanto, causa polêmica.

O festival vai levar para São Luiz do Paraitinga o DJ francês Bob Sinclair, um dos mais renomados do mundo, além de Turma do Pagode, Buchecha e Bonde do Tigrão. Jorge Ben Jor foi outro convidado. Para prestigiar as bandas, o folião terá de pagar ingresso, já que as apresentações serão realizadas em uma área vip dos patrocinadores.

As apresentações, porém, não fazem parte da programação oficial da prefeitura, que prevê o desfile de 14 blocos e cinco bandas. A reportagem procurou o secretário municipal de Turismo, Eduardo Coelho, no fim da tarde de ontem para comentar a possível descaracterização do carnaval, mas não conseguiu resposta. Em entrevista ao site de notícias G1, ele afirmou que não recebeu confirmação da programação da cervejaria. Coelho destacou que, se a programação for "nociva" à tradição local, a comissão de carnaval da cidade poderá vetá-la. Mas, na mesma entrevista, declarou que os patrocínios são necessários para garantir o custeio da festa.

Alguns moradores e turistas, no entanto, não são tão lenientes. "Todo ano vou a Paraitinga curtir as marchinhas. Se tiver funk, prefiro ir para o Rio de Janeiro", disse a estudante de Direito Silvana Rodrigues de Lima, de 22 anos, moradora de São José dos Campos. "O que tem a ver música eletrônica com carnaval?", indaga Marcelo Alves Almeira, de 32 anos, de Taubaté, também no Vale do Paraíba. "Parece que querem acabar com o pouco do que sobrou do carnaval de marchinhas", completou.

História. Apesar de o carnaval na cidade já ser tradição, São Luiz do Paraitinga passou quase todo o século 20 sem folia. O motivo foi a proibição do vigário da cidade, monsenhor Ignácio Gióia. Diz a história local que ele vetou todas as manifestações "profanas". O carnaval só recomeçou em 1981 e ganhou as ruas com os blocos Zona do Agrião, Ovelhas Negras, Petróleo, Rua Nova e Melindrosas.

Mas foi a partir de 1982, com o Bloco Encuca a Cuca, que o carnaval começou a criar a identidade conhecida até hoje, voltada à tradição regional. Os blocos de São Luiz do Paraitinga propõem revelar as lendas que faziam parte do imaginário local, por meio de bonecos gigantes aliados à musicalidade da marchinha.

Cultura local. Assim, os blocos carnavalescos passaram a não reverenciar personagens tradicionais do carnaval, como o pierrô e a colombina, e sim ícones da cultura local como o Juca Teles (morador morto em 1962 que lutou pela preservação da cultura da cidade) e outros personagens das lendas locais.

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