Funerais de anjinhos

Por muito tempo, após a inauguração do Cemitério da Consolação, em 1858, os túmulos de crianças foram situados em áreas separadas para elas, classificadas, como se vê em seus registros antigos, em anjos pequenos, anjos dos médios e anjos grandes. A hierarquização dos anjos obedecia a uma espécie de escala de angelicalidade: quanto mais perto do nascimento, mais perto do céu. Com o fim da infância, as crianças deixavam de ser anjos porque, no imaginário da época, ao amadurecer entravam no mundo pecaminoso da carnalidade. E aí o céu dependia de muita confissão, de muito arrependimento e de muita penitência.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

Numa dessas covas de anjinhos, em 1863, sem pompa, foi enterrado Emiliano, de 3 meses, filho do poeta Fagundes Varela, que com a mulher vivia pobremente na casa de uma chácara atrás da Igreja do Bom Jesus do Brás. Muitas vezes, Varela vagou à noite pelo cemitério para ir chorar sua dor sobre o montículo de terra da tumba de seu menino. Expressou sua dor e seu pranto na bela elegia do seu Cântico do Calvário: "Como eras lindo! Nas rosadas faces tinhas ainda o tépido vestígio dos beijos divinais, - nos olhos langues brilhava o branco raio que acendera a bênção do Senhor quando o deixaste! Sobre teu corpo a chusma dos anjinhos, filhos do éter e da luz, voavam, riam-se alegres das caçoilas níveas celeste aroma te vertendo ao corpo!".

O Consolação teve na Marquesa de Santos, mais tarde ali sepultada, uma das benfeitoras. Quando ainda não havia o cemitério, poucos anos antes, um enterro de criança que marcou São Paulo e teve no poeta Álvares de Azevedo um narrador compungido foi, em 1849, o da filha, ainda criancinha, de Dona Maria Isabel de Alcântara, condessa de Iguaçu, paulistana. Mãe quase menina, aos 19 anos, irmã bastarda do imperador do Brasil, dom Pedro II, e da rainha de Portugal, dona Maria II. A condessa era filha reconhecida de dom Pedro I com a Marquesa, de cuja casa, na Rua Alegre, depois Brigadeiro Tobias, saiu o féretro. Era uma segunda-feira, 18 de junho. A pequena neta de imperador e rei morrera de madrugada, de convulsões. Foi um funeral real, de grande pompa. O anjinho teve a testa adornada por uma coroa de flores, roupas cândidas bordadas de ouro. Nas bordas do caixão, cetins bordados de ouro. Via-se as dobras da capa de veludo azul também bordada de ouro. Eram as vestes para o batizado, que fora previsto para o sábado seguinte, dia 23, com um baile.

Muita gente compareceu ao funeral, o enterro percorrendo as ruas lentamente, passando pela Ponte do Acu, no Anhangabaú, no que seria depois a Ladeira de São João, até o começo do que é hoje a Avenida Rangel Pestana. O sepultamento seria na Igreja do Carmo. O féretro atravessou a cidade de ponta a ponta, ao som da música fúnebre de bandas de música. Era noite. Chovia.

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