Funcionários e artistas temem 'novo cultura artística'

Espaço queimou em 2008 e não reabriu até hoje; auditório recebeu shows importantes da MPB

Julio Maria,

29 Novembro 2013 | 23h55

O Auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, recebeu, por quase 13 anos, shows de nomes importantes da MPB, como Milton Nascimento, Gal Costa, Paulinho da Viola e Toquinho, e concertos eruditos, sobretudo de orquestras latino-americanas.

Com capacidade para até 1.600 pessoas, teve também em seu palco festivais internacionais e eventos diplomáticos entre governantes latino-americanos. Foi adotado como "a casa" da Orquestra Jovem Tom Jobim, que faz suas apresentações por lá desde a abertura. "Estou surpreso, ainda sabendo das notícias. É um lugar muito importante por sua arquitetura e sua localização. Espero que não seja um novo Teatro Cultura Artística", diz o maestro e saxofonista Roberto Sion, regente da orquestra. Ele se refere ao teatro da Rua Nestor Pestana, no centro, incendiado em agosto de 2008.

Há 20 dias, o compositor e violonista Roberto Simões se apresentou com a Orquestra Jovem. "Usamos metade do espaço do auditório. É um lugar que foi adaptado, como se houvesse um auditório para cada lado."

Sua percepção era de que a grande quantidade de concreto, característica nas obras de Oscar Niemeyer, refletia em uma acústica por vezes inadequada. "O som ficava vivo demais." A compensação teria sido feita no tratamento acústico do teto, local em que os bombeiros suspeitam que o incêndio começou.

De início mais centrada em uma programação que promovesse o diálogo entre povos latino-americanos, a programação da sala, aos poucos, foi se abrindo também a manifestações tipicamente paulistanas. Na tarde desta sexta-feira, a assessoria de imprensa ainda não tinha informações precisas sobre o que faria com a programação de shows.

"A Defesa Civil vai, certamente, interditar a área e a programação deve ser suspensa", disse um dos assessores. Um pouco mais tarde, a Secretaria de Cultura divulgou um comunicado informando: "Em virtude do acidente, o Sétimo Encontro Paulista de Hip-Hop, que aconteceria no Memorial da América Latina, neste sábado, será adiado, ainda sem data prevista para sua realização. Em respeito ao público, será mantida uma curta apresentação da americana MC Mahogany Jones e da DJ Simone Lasdenas, às 15h, na Praça Cívica do Memorial".

A assessoria de imprensa do projeto Circo Paratodos, realizado nas dependências do Memorial com bandas, entre as 19h e as 23h, em uma tenda armada distante do auditório, afirmou nesta sexta que a programação não foi suspensa pela direção do local.

Assim, estão confirmados os shows da banda Filarmônica de Pasárgada, formada por alunos da USP em 2008, às 19h de amanhã. "Fazemos o projeto do Circo na raça, é uma festa que temos, bacana para a cidade", disse Francine Ramos, divulgadora do evento.

Os outros shows agendados para o fim de semana, que não seriam realizados na sala Simón Bolívar, são os do grupo Zeró Santos Big Band Project, na segunda, o da Banda Fresno, na terça.

Patrimônio. Erguido em uma área total de 84.480 m², o Memorial foi reconhecido pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) como um dos mais importantes patrimônios culturais do Estado do País. Seus aparelhos culturais receberam ainda apresentações do cantor lírico Luciano Pavarotti e do Ballet Nacional de Cuba. Seu projeto cultural foi desenvolvido pelo antropólogo Darcy Ribeiro.

A intenção dos programadores foi estabelecer conexões entre as culturas, ainda que muitos projetos realizados nos últimos anos não tivessem a presença latino-americana como obrigatória. Suas dependências recebiam também, nos dias de semana, escolas infantis que levavam seus alunos para conhecer os espaços.

O Memorial passou a ser considerado pela Secretaria de Cultura como um dos principais pontos turísticos da cidade. Antes de funcionar quase que como uma sede fixa da Orquestra Jovem Tom Jobim, foi de fato o QG da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. O projeto da Universidade de Música e da Orquestra Jazz Sinfônica também nasceram em suas dependências.

Um funcionário que acompanhou os trabalhos dos bombeiros na tarde de sexta informou que a cena no auditório era desoladora. "Muitos estão com medo de que isso aqui possa desabar a qualquer momento", disse, sem querer se identificar. Sobre as condições de palco e plateia, disse não ter sobrado nada, por aquilo que podia perceber no trabalho dos bombeiros. Não eram informações oficiais, mas suspeitas que já preocupavam quem usa a Simón Bolívar com frequência.

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