Fuleco fuleiro

A escolha do nome "Fuleco" para designar o mascote da Copa do Mundo, convenhamos, não honra a inventividade de um povo capaz de criações bem mais imaginosas.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h06

E não me refiro a nomes apenas, neste país de Richarlysons, Leideneides e Maicosuéis. Aqui mesmo, faz um tempo, arrolei inventos nacionais, úteis ou delirantes, como o escorredor de arroz, o descascador de ovos de codorna, o identificador Bina de chamadas telefônicas, a cadeira de balanço cujo movimento aciona um abano, o empacotamento com plástico para evitar violação de bagagem, a placa para marcar minutos de acréscimo nos estádios, a chuteira de bico quadrado para endireitar o chute, a jangada de plástico que aguenta uma Kombi, o espaguete flutuante das piscinas e a "tanga-preservativo" de látex para a mulher usar durante o ato sexual.

Pense nessa criatividade exaltada e me diga se Fuleco é concepção verbal que se apresente - ainda mais quando se tem, prontinho, redondinho, o tatu-bola, tão mais bem bolado. Estão dizendo que a palavra foi composta a partir de "futebol" e "ecologia" (mas aí não seria "futeco"?) A mim "fuleco" lembra mais "fuleiro", que no Houaiss está como sinônimo de irresponsável, pouco sério, não confiável, sem valor, medíocre, reles, destituído de gosto e refinamento, simplório, cafona. Junte-se a isso o sufixo -eco, que não raro é diminutivo pejorativo (jornaleco), e veja em que buraco foram meter nosso tatu.

Somos capazes de coisa melhor, é claro. A lista do segundo parágrafo está longe de ser exaustiva. E não para de crescer. (Ainda não perdi a esperança de que algum cérebro privilegiado se disponha a realizar ideias que tive para inventos a meu ver indispensáveis: o pernilongo sem áudio, a plástica de voz, a cama ejetável e o repelente para a mala direta sem alça.)

Até minutos atrás, quando em busca de aggiornamento me embrenhei nos alfarrábios internéticos, eu não sabia, por exemplo, da existência do terço eletrônico. Se bem entendi, trata-se de um passo adiante na tecnologia da reza. Pelo menos para quem, como eu, permanecia estacionado em algo muito antigo, trazido de Roma pela minha avó no século passado: aquele terço em forma de anel, provido de saliências externas à guisa de contas, e de uma rosca que o fiel, em prece, faz girar; acabou a rosca, acabou o terço.

Há mais, muito mais. Aquele spray com que o juiz, no futebol, assinala o ponto onde a falta deve ser batida, nasceu aqui. Idem a lavagem de carro a seco. O cafezinho de bolso. O capacete com viva-voz. Um dispositivo que aproveita a energia gerada pelos movimentos do abdome, permitindo acender uma lanterna (já pensou no potencial energético das ancas desvairadas na dança do ventre?). O cortador de comprimidos. O apagador que aspira o pó de giz. A vara de pescar que puxa o peixe quando é fisgado. O WC portátil, descartável, para ser usado - por mulheres, inclusive - em desembarques hídricos onde não haja toalete. A "blusutiã", peça de roupa que dispensa sustentáculo para íntimas pendências. O selim de bicicleta repartido em dois, um assento para cada gomo. O localizador de cadeira vaga em cinema. E, louvado seja o Senhor do Bonfim, o acarajé em pó.

Com tanta criatividade no ar, não é de espantar que sobre alguma para forasteiros em visita à terra. Desandam a inventar moda. Nos usos e costumes dos banhistas cariocas, um capítulo, mundano mas não irrelevante, foi escrito em 1902 - ano em que, conta Ricardo Boechat em seu livro sobre o Copacabana Palace, se inventou a toalha de praia. O criador dessa precursora da esteira e da canga foi um barbeiro inglês, Wallace Green, que, depois de escanhoar as bochechas de um freguês, resolveu dar um mergulho em Copacabana e para lá se mandou como estava, com seus petrechos de fígaro. Como não levava algo em que se esticar na areia, nem ao menos o jornal que alguns usavam para esse fim, recorreu Green a sua toalha de barbeiro, gesto que não tardou a ser arremedado por banhistas nativos.

Não parece coisa de brasileiro?

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