''Fui vista como culpada, até que provasse o contrário''

Depoimento - Patrícia Franco, jornalista

, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2011 | 00h00

"Na terça-feira pela manhã, tinha dois compromissos importantes: ir ao cartório reconhecer firma nos documentos de venda do meu carro e, em seguida, levá-los à loja onde negociei o veículo. Isso tinha de ser feito naquela manhã, sem falta, como havia sido combinado com a loja.

Saí cedo de casa e, antes de tudo, parei em um caixa eletrônico de uma loja de conveniência, em um posto de gasolina na Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, para sacar dinheiro. Não tenho o costume de fazer saques fora de agências bancárias, mas aquele dia era diferente - o horário apertado na manhã era uma emergência. Saquei R$ 100 no caixa do Banco 24 horas. Saíram notas de R$ 20, que conferi rapidamente e guardei.

Já no cartório, na hora de pagar a conta, entreguei uma daquelas notas à moça do caixa, sem olhá-la com muita atenção. A atendente esfregou a cédula, observou-a contra a luz e lançou-me um rápido olhar de reprovação. Saiu e chamou o gerente, que veio com ela em minha direção. "Não podemos aceitar a sua nota, moça. Ela está manchada de rosa." Tomei um susto, olhei bem para a nota. Ela estava limpa - devia ter sido "lavada" - e, em um dos lados, tinha apenas uma faixa borrada de rosa bem claro. Não era como as cédulas pintadas mostradas na TV. No meio de outras, ficou imperceptível. Como eu poderia imaginar que entre um dinheiro saído de um caixa eletrônico estaria uma nota roubada?

Enquanto explicava à moça que havia acabado de sacar o dinheiro, percebi que o cartório inteiro me observava. Fiquei envergonhada e entendi que, neste caso, todos são vistos como culpados até que se prove o contrário.

Agora eu tinha uma nota inválida e não sabia o que fazer com ela. Entre os funcionários do cartório, uns diziam que era preciso apresentá-la em uma delegacia e fazer um boletim de ocorrência - como que tentando provar à polícia que eu não tinha ligação com nenhuma quadrilha de roubo de caixas eletrônicos! Outros diziam que era preciso apresentá-la na minha agência bancária, com um extrato da conta emitido na mesma máquina em que saquei o dinheiro, para tentar recuperar o valor. Tudo seria trabalhoso e tomaria um tempo que não tinha naquele dia.

Fiquei confusa e nervosa. Meus compromissos já estavam atrapalhados. Pensei em simplesmente jogar a nota fora e assumir o prejuízo, mas o constrangimento pelo qual tinha passado e o transtorno de ter de resolver um problema do qual não tinha culpa deram-me vontade de ir à polícia, talvez engordar alguma estatística e ajudar a combater o tal crime nos caixas eletrônicos.

Voltei ao caixa de onde saquei o dinheiro, tirei um extrato e liguei para o gerente do meu banco. Fui orientada a apresentar a nota em qualquer agência de qualquer banco. Ela seria enviada ao Banco Central, para que fosse analisada e comprovassem que ela não era falsa. Novamente, eu era culpada até que se provasse o contrário... Fiquei com um recibo do banco e, só depois da análise do BC, poderei, talvez, ser ressarcida. A propósito, um dia depois, na quarta-feira, verifiquei que a tarifa de uso do caixa eletrônico havia sido debitada de minha conta corrente."

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