'Fui bode expiatório para blindar o governo'

Ré do maior acidente aéreo do País, ex-diretora da Anac Denise Abreu diz que só 'assinava papel' e houve proteção à Infraero

Entrevista com

Tiago Dantas, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2013 | 02h11

Ré no processo criminal que investiga o maior acidente aéreo do País, a ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu afirma que foi "eleita como bode expiatório do sistema político do Brasil" para levar a culpa pelo acidente e, assim, "blindar o governo." Denise disse que está disposta a revelar bastidores e "toda a verdade" sobre o incidente no seu interrogatório, que ainda não foi marcado, mas deve ocorrer em 2014.

As declarações foram dadas no fim da tarde de ontem na porta da Justiça Federal, nos Jardins, zona sul de São Paulo. Denise deixava o prédio, após acompanhar o segundo dia de audiências do processo sobre o acidente do voo 3054, da TAM. Em 17 de julho de 2007, um Airbus A320, que saiu de Porto Alegre, não conseguiu pousar na pista do Aeroporto de Congonhas, na zona sul, e colidiu com um galpão da companhia, causando a morte de 199 pessoas.

Dois pilotos que prestaram depoimento ontem confirmaram que a pista ficava escorregadia em dias de chuva, colocando em risco a segurança dos pousos. Além de Denise, dois diretores da TAM foram denunciados pelo crime de atentado contra a segurança de transporte aéreo. "Essas três pessoas foram denunciadas pois há provas robustas de que eles agiram de forma culposa, sem intenção, mas com negligência", afirmou o procurador da República Rodrigo de Grandis.

Enquanto conversava com jornalistas na porta do Fórum, Denise teve de ouvir parentes de vítimas. "Faz seis anos que choro todos os dias a morte da minha filha. Como a senhora pode dizer que sabe o que a gente sente, se seus filhos estão em casa?", indagou, emocionado, o empresário Roberto Silva, pai da comissária Madalena, que morreu no acidente. Leia trechos da entrevista de Denise:

O que a senhora pretende falar no seu depoimento?

Estou disposta a trazer toda a verdade. Será minha primeira oportunidade de falar tudo o que aconteceu. A Anac não tem nenhuma corresponsabilidade direta ou indireta no acidente. E confio na imparcialidade do Poder Judiciário para provar minha inocência.

O MPF aponta a senhora como uma das responsáveis...

Não fui eu a responsável pelo acidente. É impossível um diretor jurídico de uma agência reguladora, que só assina papel, ser responsabilizado por um acidente aéreo. Também sou vítima. Fui eleita bode expiatório do sistema político do Brasil, que esconde as mazelas do setor aéreo. Os políticos, quando fizeram a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Apagão Aéreo, não investigaram o que deveriam, fizeram acordo para acusar a Anac.

Por que acusar a Anac?

Não compete à Anac liberação de pista. Desde 1950, o Aeroporto de Congonhas funciona com a administração aeroportuária da Infraero. O que eu me pergunto é: Por que tanta proteção à Infraero? Não houve denúncia com relação a nenhum dos diretores ou presidente da Infraero porque a Infraero é um órgão do governo (federal). A Anac é um órgão de Estado, uma agência reguladora. Por isso jogaram a culpa na Anac, para blindar o governo.

Ontem, a desembargadora Cecília Marcondes disse que a senhora a enganou, dizendo que um estudo era uma norma...

Infelizmente acho que ela não conseguiu compreender que estava julgando um agravo de instrumento que tratava só de três aviões: o Fokker 100 e os Boeings 737-300 e 737-800. Em nenhum momento, o Airbus foi proibido de pousar. O que a Anac fez, e não eu, Denise Abreu, foi entrar com agravo sobre as três aeronaves. E o Judiciário sempre entendeu que os Airbus tinham margem de segurança absoluta para pousar nas condições que Congonhas apresentava.

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