Frutas de cemitério

De quem são as frutas de cemitério? Você chuparia uma laranja de uma laranjeira que há no Cemitério São Paulo? Pois, eu não! E uma pitanga da pitangueira que frutifica todos os anos sobre um dos túmulos do Cemitério dos Protestantes, anexo ao Cemitério da Consolação? Eu, nem pensando! E uma amora de uma amoreira do Araçá? Nem morto! No São Paulo, os coveiros, hoje denominados, se não me engano, técnicos de sepultamento, quando podem, colhem as frutas e as dão a moradores de rua, que sempre os há ali por perto.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2012 | 02h01

Historicamente, os pobres, em nossa sociedade, são herdeiros do que sobrou dos defuntos. E isso não é apenas por caridade. De um lado, é por repulsa e medo. De outro lado, para demonstrar ao Juiz Supremo, que o falecido "era assim com os pobres", "era um pai da pobreza", testemunho em favor do alívio dos pecados cometidos. Vai, que pega.

Esta sociedade tem altíssimo preconceito contra tudo que foi de defunto. Menos seu dinheiro ou o que de seu em dinheiro possa ser convertido. É compreensível que se queira descartar tudo aquilo que lhe esteve ligado ao corpo, principalmente roupas e calçados. Às vezes, outros objetos relacionados com o corpo do defunto são estigmatizados. Já me tocou dormir, num convento em que era hóspede, em Goiânia, na mesma cama em que dormira, na noite anterior, um padre ali residente e que naquele dia falecera em desastre de automóvel. Tudo porque os parentes, vindos do interior para o velório na capela da casa e para o enterro, se recusaram a dormir no mesmo leito em que dormira tão recentemente o falecido. Ora, o defunto era deles, não meu! Pois, mudaram-me para lá, quase à força, sob argumento de que fora ele, durante a vida, um santo homem, o que eu não duvido. Mas, por sim ou por não, dormi de luz acesa e com um olho aberto. Nunca se sabe. Vai que ele voltasse para reclamar a cama que fora dele? Eu, hein?

O que era do morto ao morto pertence, já ouvi um coveiro dizer à beira de um túmulo, numa disputa para saber se a morta podia ou não levar para a cova o rosário que lhe enrolaram nas mãos. Há tribos indígenas, no Brasil, que ainda hoje sepultam com o morto tudo que foi dele, até máquina de costura. O que era do morto se torna intocável para evitar a contaminação da morte: a morte chama a morte, dizem os entendidos.

Os pomares de cemitério são formados pelos pássaros, que distribuem indiscriminadamente as sementes das frutas que comeram por aí, regenerando, em proveito próprio, espontâneas plantações frutíferas. Intocáveis, as frutas de cemitério pertencem, na verdade, aos passarinhos. No Cemitério do Redemptor, protestante, em frente ao Araçá, não só fruteiras, mas também bebedouros estão espalhados pelas árvores para atrair os pássaros e restabelecer um nexo de alegria entre quem foi e quem ficou.

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