Frio castiga população de rua da cidade

Fogueiras e várias camadas de roupa ajudam a sobreviver ao relento no inverno; Prefeitura diz que sobram cem vagas todas as noites em albergues

Paulo Saldaña, Bruno Lupion, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

 

Na gélida madrugada de ontem, o morador de rua Anderson, de 22 anos, se encolhia em torno de uma fogueira no centro de São Paulo. Tentava aquecer-se e cozinhar uma sopa para o jantar. Com a temperatura em torno de 11°C, suas duas calças, três blusas, um cobertor e papelão para cobrir o chão não eram suficientes para garantir uma noite de sono. "Dá um incomodo muito grande. Rolo pra lá, rolo pra cá. O corpo fica todo dolorido", conta ele, que sobrevive vendendo artesanato e dorme próximo do Terminal Parque D. Pedro, na região central.

E por que ele não vai para um abrigo da Prefeitura? "Albergue é muito difícil, tem de chegar às 3 da tarde, no máximo. Nessa hora já tem uma fila gigante. E há moradores muito mais antigos cadastrados que têm preferência."

Ele não é o único a se queixar. No fim da tarde de ontem, o desempregado Francisco Pereira da Silva, de 45 anos, permanecia de pé na porta do Centro de Acolhida Barra Funda à espera de atendimento. Sem residência fixa há cerca de um ano, Silva conta que na última semana passou três noites ao relento porque não conseguiu abrigo. "Quando não tem vaga, durmo em caixa de papelão ou fico andando, para esquecer do frio."

Sentado em um ponto de ônibus em frente à Estação Luz, no centro, o morador de rua José Costa Amaral, de 54 anos, diz que só consegue lugar em abrigo com recomendação da equipe da Central de Atendimento Permanente e de Emergência (Cape). "Sem o papel que eles dão, a gente não entra", reclama.

As baixas temperaturas do inverno - em especial das últimas noites - têm feito aumentar a demanda pelos albergues. Desde o dia 17 de maio, a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social colocou em prática a operação Baixas Temperaturas que, entre outras ações, aumentou em 20% o número de vagas - chegando a 9.200 na cidade - e alterou os horários de atendimento. O de entrada foi antecipado em uma hora, passando para as 16 horas, e o de saída foi estendido também em uma hora, para as 9 horas.

Segundo a Assessoria de Imprensa da Secretaria, mesmo nas noites mais frias, sempre sobram cerca de cem leitos nos 43 centros que acolhem moradores de rua na capital. E as organizações sociais que administram os abrigos são obrigadas a acolher todos os usuários que procuram os serviços. Se as vagas em determinado local já estiverem ocupadas, os responsáveis devem acionar a Cape, cujos agentes encaminharão o interessado para albergues com vagas disponíveis. Caso não haja leitos em abrigo, a secretaria afirma que se dispõe a arrumar vagas emergenciais até mesmo em hotéis de baixo custo.

Dois fatores, de acordo com a Prefeitura, são preponderantes para que, mesmo com um número enorme de pessoas em situação de rua, ainda haja vaga nos abrigos: as regras de convívio - que incluem horários rígidos e a proibição de bebidas - e o fato de as pessoas não quererem ser levadas a abrigos distantes do centro. Pessoas que frequentam o abrigo com frequência ganham acompanhamento de assistentes sociais e, portando identificação, têm acesso preferencial.

O padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, afirma que nos últimos dias houve uma demanda bem maior por cobertores, mas que a instituição continua indicando que as pessoas procurem os abrigos. "A sugestão para atender mais gente nesta época é que haja alternativas de locais com regras mais flexíveis, principalmente na questão do pernoite."

Censo. Nos últimos dez anos, o total de pessoas em situação de rua em São Paulo cresceu 57%. Delas, 51,8% (7.079) dormem em albergues municipais e 48,2% (6.587) vivem ao relento. Desde 2008, a Prefeitura desativou dois albergues no centro que ofereciam 700 vagas. Neste ano, entretanto, já anunciou a criação de outros seis centros e a ampliação de mais um, no Brás, totalizando 950 leitos. Os centros devem ser entregues até o fim do ano. Nos últimos meses, foram criados dois locais - um, na Barra Funda, com 310 vagas.

Ajuda. O telefone para acionar agentes da Cape, o serviço de auxílio aos moradores de rua, é (11) 3397-8850.

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