Free Tour desvenda a pé o centro da cidade

Comum no exterior, passeio tem como foco os estrangeiros de passagem pela capital

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2013 | 02h05

Sob sol de 34ºC, um grupo de cinco pessoas passeia pelo centro de São Paulo, parando e observando os principais prédios históricos. Não fossem o guia falando inglês e os looks gringos - bermuda, chinelos com bandeiras do Brasil, bonés de turismo -, eles passariam despercebidos. Não se trata de um tour tradicional, mas do Free Walking Tour, feito a pé e no esquema 'pague quanto quiser'.

Tradicional em diversas cidades turísticas pelo mundo, o Free Tour é novidade em São Paulo. Nele, o centro da capital é desvendado a pé, em uma caminhada de mais de duas horas, que passa por pontos importantes como Teatro Municipal, Praça da Sé, Pátio do Colégio e Largo de São Francisco, entre outros.

O passeio é liderado por um guia profissional que explica, em inglês, a história da região central. O tour começa e termina na Praça da República e o pagamento depende do quanto o turista acha que o passeio merece - e se merece. "Percebemos que havia essa demanda em São Paulo e resolvemos investir", conta o empresário e guia Luís Simardi.

Em uma sexta-feira de dezembro, o grupo era multicultural: um australiano, um neozelandês, uma irlandesa, uma mexicana e um chileno. Exceto a mexicana Ana Dávila, de 33 anos, que mora no Brasil há três anos, todos estavam a passeio pela capital e queriam conhecê-la um pouco melhor. "É a maior cidade que já estive na vida", disse, deslumbrado, o neozelandês Michael Hawkins, de 29 anos.

Já Ana se impressionou com o jardim que ocupa o terraço da Prefeitura. "Nunca tinha visto um jardim em cima de um prédio. Deve ser porque não há muito espaço para verde na rua."

Além da história propriamente dita, Simardi tem de lidar com questões culturais que surgem no meio do caminho. Naquele dia, não faltaram exemplos: uma missa de formatura de alunos de Medicina acontecia em plena Sé ao meio dia. E uma árvore com frutos verdes intrigou os turistas. "É uma goiabeira", tentou explicar, sem muito êxito.

Segundo o empresário, ainda está sob estudo se o tour continuará acontecendo todos os dias, ou se a frequência será menor, de três dias por semana. "Estamos analisando se é viável e se temos público para fazer o tour diário", explicou Simardi.

Se em certos dias há mais de dez pessoas, em outros ninguém aparece. Simardi acredita que a falta de conhecimento faz com que o número de turistas não seja expressivo. De qualquer maneira, ele pede que os interessados confirmem a presença por e-mail.

Impressões. Quando contou aos amigos que passaria alguns dias em São Paulo, a irlandesa Emma McGorman, de 25 anos, foi desaconselhada por todos. "Eles me perguntavam o que eu ia fazer aqui", disse. "Bom, o que não falta é coisa para fazer e lugares escondidos para descobrir." Há seis meses, ela viaja pela América Latina e São Paulo foi sua penúltima parada, antes do Rio e da volta para a Austrália, onde mora.

Exatamente por ter dado ouvido a amigos e conhecidos, o chileno Gonzalo Pinto, de 44 anos, não veio à capital paulista há 17 anos, em sua primeira viagem ao Brasil. "Fui apenas nas cidades mais turísticas, como Rio, Salvador e as do interior de Minas", contou. Anos depois, porém, o chileno está encantado com a capital paulista. "Arquitetonicamente, não é uma cidade tão interessante. Mas me impressiona por ser uma cidade que vive. As pessoas fazem esse lugar." Gonzalo era o fotógrafo mais empolgado entre os cinco turistas e não deixava escapar nem um momento sequer durante o tour.

Próximo destino. Vez ou outra as pessoas paravam para observar ou mexer com o grupo. Parados em uma lanchonete para beber água e fugir por alguns minutos do sol quente, os "gringos" foram abordados por um motorista de ônibus: "Fazer turismo no centro é fácil. Quero ver vocês irem ao Jardim Cocaia". "Quem é Cocaia?", perguntou o neozelandês Michael. E o motorista respondeu: "É o fim do mundo", disse, perdendo de imediato cinco passageiros que cogitaram por alguns segundos conhecer o bairro em Guarulhos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.