Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Francisco faz João XXIII modelo de sua Igreja

Canonização do papa do concílio e faxina em banco mostram os rumos de Bergoglio

Ocimara Balmant - O Estado de S.Paulo

22 Julho 2013 | 02h06

Numa instituição com 2 mil anos de tradição, quatro meses é pouco tempo para se fazer qualquer mudança. Mas duas ações do papa entronizado em março já sinalizam para onde vão Francisco e a Igreja: a canonização de João XXIII e o processo de limpeza no banco do Vaticano.

No âmbito teológico, a canonização do papa João XXIII é o principal indicativo do rumo a ser tomado. Recentemente, Francisco dispensou a exigência do segundo milagre para que o "papa bom" - aquele que convocou o Concílio Vaticano 2.º e cujo processo estava havia 50 anos engavetado - se tornasse santo. "Isso diz muito. Mostra que tipo de santidade interessa a Francisco. E, pelo jeito, ele quer foco naqueles aficionados pelos pobres", diz Afonso Soares, do Departamento de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Como consequência do Vaticano 2.º, nos anos 1960, a Igreja substituiu o latim pelas línguas nacionais nas celebrações e fez os padres rezarem a missa voltados para o povo. Afirmou-se ainda o compromisso do cristão com a justiça social.

"E não foi só João XXIII", diz Soares. Francisco mandou apressar a beatificação de d. Oscar Romero, arcebispo que defendeu perseguidos e famílias de desaparecidos no regime militar de El Salvador e acabou morto por paramilitares.

Essa opção pelos homens que pregaram o compromisso social dialoga com a segunda área em que a mão do papa já é visível: a rigidez com que tem atuado em relação às denúncias de corrupção no Instituto das Obras da Religião, o chamado banco do Vaticano. Uma igreja engajada na justiça social não pode ostentar. Francisco nomeou uma comissão de investigação e, em pouco tempo, o diretor e o vice já renunciaram.

"A próxima mudança deve ser a reforma da Cúria, prevista para outubro. E, se Francisco mantiver a cadência dos passos já dados, não fará apenas uma troca de nomes. Vai descentralizar e tirar este poder excessivo preso na mão de meia dúzia de cardeais", prevê o frei e professor Clodovis Boff. Ele diz que, nos últimos pontificados, os bispos eram subestimados. "Eles reclamavam de serem tratados como coroinhas pela Cúria. E, teologicamente, quem tem o poder espiritual são os bispos, não os burocratas."

O primeiro sinal de que o colegiado terá voz foi dado nos minutos iniciais do pontificado quando, da sacada do Vaticano, o desconhecido Bergoglio se apresentou como bispo de Roma. "Não era mais um papa que mandava em tudo, era um companheiro", avalia Luiz Alberto Gómez de Souza, diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.

Souza acredita que, com Francisco, crescerá a participação dos bispos na experiência pastoral das igrejas locais. "As conferências devem ter um protagonismo na nomeação de bispos de sua região, que elas conhecem melhor do que ninguém."

Mudanças. A abertura para a experiência e a voz dos bispos pode fazer com que a Igreja se torne mais sensível à realidade dos povos. E, assim, algumas questões disciplinares poderão ser revistas. No topo da lista, está o celibato obrigatório. Com a carência de sacerdotes, esse é um ponto que poderá mudar.

A indissolubilidade do matrimônio não deve ser alterada, mas a tendência é que a Igreja facilite a anulação das primeiras núpcias. As expressões "até que a morte os separe" e "o que Deus uniu não o separe o homem" continuarão válidas, mas admite-se que há casos em que o casamento não foi uma decisão tomada sob a bênção divina, que permitiria a anulação.

Já nas questões morais, quem espera uma flexibilização em relação ao casamento gay e à legalização do aborto vai se decepcionar, avalia Boff. "Como arcebispo de Buenos Aires ele já se posicionava contrário ao casamento gay. Não vai mudar. Mas ser contra não significa não acolher. Isso ele faz."

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