França tira de relatório alerta para a Airbus

Investigação cortou trecho sobre defeito em alarme de perda de sustentação do voo 447

, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2011 | 00h00

Uma denúncia feita pelos jornais franceses La Tribune e Les Echos levantou suspeitas sobre o último relatório do BEA, órgão responsável pela investigação da queda do voo 447 da Air France no Oceano Atlântico, em maio de 2009, que deixou 228 mortos. Horas antes da divulgação, a entidade cortou do documento parágrafos inteiros que apontavam um "funcionamento anormal" do alarme de estol (perda de sustentação) dos aviões da Airbus, além de uma recomendação para aperfeiçoá-lo.

O mau funcionamento do alarme pode ter confundido os pilotos, já que soava de maneira intermitente, mesmo quando as manobras eram corretas. Segundo a imprensa francesa, as "consequências econômicas" do problema - que seria igual em todos os Airbus A330 - são desastrosas para a fabricante e para a Air France.

No terceiro relatório - o mais recente, divulgado na sexta-feira -, o BEA faz várias recomendações às autoridades de aviação. Entre elas, que "revejam o conteúdo do programa de treinamento para pilotos" e que obrigue a instalação de câmeras nas cabines. Nada sobre a falha no alarme de estol. O BEA também aponta que ações dos pilotos contribuíram definitivamente para o acidente. "A situação era salvável", disse o diretor do órgão, Jean-Paul Troadec.

"Esse triste episódio joga definitivamente o descrédito sobre a investigação técnica", disse Robert Soulas, presidente da Associação de Ajuda Mútua e Solidariedade, que representa as famílias das vítimas na França. "A precipitação com a qual esses responsáveis acusaram os pilotos, sem reflexão anterior, havia suscitado nossa suspeita."

Falha técnica. O congelamento dos pitots (sensores de velocidade), que deixou os pilotos sem parâmetros de voo, quase não foi mencionado no terceiro relatório. Meses antes, era apontado pelo próprio BEA como a principal causa da queda.

"No começo da investigação eles admitiam o defeito técnico. Depois, caem em contradição e começam a culpar quem não está mais aqui para se defender", diz Nelson Faria Marinho, presidente da Associação de Familiares das Vítimas do Voo 447, que representa os brasileiros.

Sem colaboração. O sindicato francês dos pilotos de voos comerciais (SNPL, na sigla francesa) vai suspender a colaboração com as investigações do acidente. Em comunicado, pediu ao BEA para explicar por que "ignorou no relatório oficial a recomendação sobre o alarme de perda de sustentação". "Que outras alterações significativas foram feitas no relatório?", questiona Jean-Louis Barbier, um dos presidentes do sindicato.

A Air France afirma ter pedido à Agência Europeia de Segurança Aérea (AESA) que a questão seja "rapidamente reexaminada". A companhia já havia ressaltado que os pilotos foram "fortemente prejudicados" pelas "múltiplas ativações e paradas intempestivas e enganosas do alarme de estol". / ANDREI NETTO e NATALY COSTA, COM REUTERS e AFP

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