Claudio Pepper
Claudio Pepper

Fotógrafo registra despedidas do cigarro

Ex-fumante há 10 anos, Carlos Pepper faz ensaio com quem está abandonando o vício

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2010 | 00h00

Ele parou de fumar há 10 anos e só se arrepende de uma coisa: não ter registrado em imagem o prazer do último trago, o sabor da despedida, o dó de si mesmo. Fotógrafo profissional há meia década, o paulistano Claudio Pepper, de 47 anos, está colocando em prática uma ideia fixa. Desde o início do ano, fotografa pessoas na íntima situação de fumar o último cigarro - projeto que chama de The Last Cigarettes Portraits.

Publicitário de formação, Pepper sempre levou a sério o hobby da fotografia - fez o primeiro curso aos 17 anos. Aos 42, decidiu mudar de ramo - saiu da empresa de marketing da qual era sócio para se dedicar à vida de fotógrafo free-lancer. Sua meta é transformar os registros de pessoas com o último cigarro em exposição e, quem sabe, até em livro. "Pensei no projeto muito antes da lei antifumo", afirma. "Mas concordo que, com ela, tudo ganha mais apelo."

Na última quarta-feira, em conversa com o Estado, enumerava cinco ensaios já feitos - na sexta, faria mais um acompanhado pela reportagem. "Mas só considero quatro porque uma das pessoas voltou a fumar."

Para Pepper, não basta fotografar e pronto. Na verdade, ele acaba virando quase um terapeuta - são muitas conversas até que a pessoa realmente tenha certeza de que, pronto, chegou a hora de parar de vez. "Tem gente que leva meses nesse processo", diz. Depois, o fotógrafo fica amigo do fotografado - por isso sabe se cada um deles sucumbiu ou não ao vício mais uma vez.

Na última sexta, foi a vez do cabeleireiro e maquiador Denny Azevedo, de 26 anos. Onde? No Viaduto do Chá. "É um lugar onde todo mundo já passou ou um dia vai passar", explica Azevedo. "Simboliza esse mix de culturas que é São Paulo." E por que ser fotografado no último momento com o cigarro? "Acredito que o projeto serve como alerta. Quero que as pessoas vejam que parar não é uma coisa negativa."

Lembranças. A primeira a ser fotografada foi a empresária Paola Suplicy, de 38 anos. "Tinha muito prazer em fumar, mas precisava parar de qualquer jeito", diz. "A foto fica em um porta-retrato na sala e serve para que eu lembre, sempre que tenho vontade de voltar a fumar, que aquele foi meu último cigarro." A derradeira tragada foi no carnaval deste ano. Paola escolheu a casa de uma prima no Morumbi como cenário. "Aproveitei bem, foi bom enquanto durou", suspira.

Mais intimista, a produtora de televisão que pede para ser identificada somente como Bia, de 26 anos, escolheu a cozinha de sua casa, na Lapa. "Sempre fumei pouco, então parar não foi difícil. Como sou ligada ao mundo das artes, achei interessante registrar o momento."

Ex-fumante há quatro meses, o publicitário Alexandre Manetti também escolheu como cenário da foto sua casa, que fica na Vila Nova Conceição - e a companhia de um vinho D.V. Catena Malbec. Ele fumava desde os 17 anos, hoje está com 52. "Chamei o fotógrafo quando já estava muito decidido. Sabia que era minha hora", relata. "A foto se tornou importante porque virou um divisor na minha vida. Olho para ela e me refiro "ao tempo em que fumava"."

Emoção. Com a experiência de quem também teve seu último cigarro, Claudio Pepper esforça-se para registrar a situação com a emoção merecida. "Essa coisa de fumar o último... Você passa a ter dó de você", filosofa. "Eu pensava: "poxa, nem isso (um cigarro) vou merecer mais"."

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