Forçando a barra

Episódios recentes de violência sexual contra garotas, cometidos por pessoas próximas, que estudam ou frequentam a mesma escola ou universidade e se valem de subterfúgios como mensagens falsas, ameaças na internet ou uso de álcool para facilitar o acesso às vítimas, ganharam espaço na mídia recentemente e revelam uma incapacidade de alguns homens jovens de lidarem com seus impulsos sexuais.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2013 | 02h04

Na última semana, o Estado trouxe uma notícia preocupante. Uma garota, estudante de Engenharia da USP em Lorena (190 km de São Paulo), estava em uma festa em uma república com uma amiga, seu ex-namorado e dois colegas. Em um dado momento, depois que a amiga havia saído, os três jovens teriam trancado a garota na casa e tentado beijá-la à força e tirar sua roupa. A garota teria se livrado deles ao gritar e começar a dar tapas nos rapazes. Os garotos foram intimados a depor pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) da cidade, que investiga a ocorrência de violência sexual.

Há cerca de dois meses, em outro episódio na USP, desta vez no câmpus de São Carlos, no período do trote, um grupo de veteranos hostilizou um grupo de feministas que protestavam contra a realização do concurso de "miss bixete". Como reação, dois veteranos exibiram seus genitais e um outro simulou fazer sexo com uma boneca inflável. O Ministério Público da cidade acionou a Polícia Civil e os rapazes podem responder por crime de ato obsceno.

O que essas histórias têm em comum? Parece estar ocorrendo, do início da adolescência até a vida universitária, uma dificuldade muito grande de alguns homens de entender alguns limites essenciais do exercício de sua masculinidade. Não estão respeitando princípios básicos de ética e da convivência em sociedade. O desejo sexual existe, sim, para homens e mulheres, mas é importante aprender como lidar com ele.

No início da adolescência, garotos - influenciados pela pressão do grupo, de amigos mais experientes, da postura sexista de alguns pais e mães, em uma sociedade ainda impregnada pelo machismo - podem se achar no direito de forçar uma garota a atender seus desejos de forma desrespeitosa e violenta.

Toda forma de violência na esfera sexual, seja ela física ou emocional, pode causar um impacto tremendo na vítima, ainda mais nas mais jovens. Mas esse tipo de informação não é acessada pelos garotos nesse momento. Alguns deles parecem ter dificuldade em separar uma brincadeira de mau gosto de algo muito mais grave, que é uma agressão.

Pelo visto, não é só na adolescência que isso tem acontecido. Um grupo de garotos, provavelmente embriagados, que forçam uma garota a beijá-los e tentam tirar sua roupa, avançam o sinal vermelho e cometem uma agressão sexual. Da mesma forma que um bando de veteranos se julga no direito de humilhar calouras (em nome de um "rito de passagem") e, nesse caso, de total descaso com a condição feminina.

Sim, a mulher mudou muito nas últimas gerações e que bom que isso aconteceu. Elas decidem, tomam atitudes e buscam igualdade. Nas mais jovens, essa mudança de postura é ainda mais marcante. Talvez os marmanjos de plantão não tenham entendido (ou entenderam muito bem, mas não conseguem lidar com a divisão do poder) que a liberdade e a autonomia da mulher não significam um convite permanente para práticas sexuais. A decisão de como e quando fazer sexo é sempre uma decisão compartilhada. Forçar a barra, criar armadilhas, passar por cima da ética ou embebedar é muito mais que desrespeito. É machismo, abuso, opressão, violência - e tem de ser tratado como tal. Tanto na escola e na universidade, de forma preventiva e educativa, como nas esferas legais, quando isso for necessário.

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