Foragido se entrega em Taubaté para cumprir pena

Homem andou cerca de 5 mil quilômetros para rever sua família e voltou para continuar pena

Simone Menocchi, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2008 | 18h11

Um homem foragido da Justiça percorreu cerca de 5 mil quilômetros a pé e de carona em busca da liberdade e para a surpresa da polícia civil de Taubaté, cidade do Vale do Paraíba, pediu para ser preso novamente, na tarde da última quinta-feira. Eriomar Nogueira Luz, de 35 anos, fugiu da penitenciária de Tremembé, andou cerca de 2,6 quilômetros até a cidade baiana de Esplanada, chegou a ser preso de novo, fugiu outra vez depois de trinta dias, voltou pelo mesmo caminho e se entregou nesta semana em Taubaté. "Não tive sossego nesse tempo, cansei de fugir".  A peregrinação começou em maio do ano passado. Com saudade da família, o baiano Eriomar, decidiu pular a muralha da penitenciária "Edgar Magalhães Noronha", em Tremembé, onde cumpria pena por roubo e furto em regime semi-aberto. "Eu não via meus pais há cinco anos e queria encontrar meus parentes de novo. Foi quando tive a idéia de sair e seguir a pé". Eriomar se feriu ao pular o muro e só com a roupa do corpo subiu a Serra da Mantiqueira em direção a Campos do Jordão enfrentando o rigoroso frio da época. "Passei muito frio, ao ponto de pedir abrigo no posto da polícia rodoviária". Soropositivo desde 2001, o baiano cumpria pena há oito anos por 13 processos, sendo nove furtos, dois roubos, uma receptação de produto roubado e outro por falsa identidade. Depois de passar pela Serra, foi seguindo até a Bahia. "Ia pedindo comida, pedindo água e quando estava limpinho, conseguia carona". O detento, que faz crochê e já foi servente de pedreiro, conta que para conseguiu carona tinha que fazer a barba. "Ganhava roupa, tomava banho e quando estava limpinho tinha carona". Eriomar diz que passou dificuldade, com frio, chuva, noites ao relento, mas não chegou a passar fome. "Em posto (de combustível) as pessoas dão comida pra gente. Ninguém passa fome em viagem não".  Foi de cidade em cidade, de posto em posto, percorrendo também os albergues noturnos que ele chegou, depois de quatro meses, à zona rural de Esplanada, na divisa entre a Bahia e o Sergipe. "Meus pais ficaram contentes, minhas irmãs também, mas sempre diziam que eu tinha que voltar pra pagar o que fiz". "Eu sou, ou melhor, eu era a única ovelha negra da família, agora sou convertido a Jesus". Na casa dos pais não ficar nem dois meses, onde ajudou no plantio de quiabo. A convivência com os parentes na Bahia não foi tão harmoniosa como Eriomar esperava e as brigas o fizeram a procurar a delegacia de Esplanada. "Ao se apresentar lá, foi detido, e esperava ser transferido com rapidez para Taubaté. Como viu que estava demorando demais, fugiu de novo e resolveu se entregar aqui". No caminho, para poder ter direito de dormir em albergues, tomar banho e se alimentar, Eriomar fazia boletins de ocorrência nas delegacias, com outro nome, alegando que tinha perdido os documentos. Cansado da peregrinação ele chegou a se apresentar em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, mas no sistema seu nome não aparecida como foragido. Desde que deixou a Bahia, levou outros três meses para chegar a Taubaté. "Quero sair de cabeça erguida daqui, vou cumprir o que me resta, mas queria voltar pra colônia", disse, referindo-se ao regime semi-aberto. Segundo o delegado Marcelo Duarte, da Delegacia de Investigações Gerais (Dig) de Taubaté, uma vaga na penitenciária do município de Potim, também no Vale do Paraíba, foi conseguida para Eriomar, que volta para o regime fechado. "Só vou estar feliz mesmo quando pagar o que devo. Conto com a ajuda de Jesus e de mais ninguém". Arrependido, Eriomar resumiu sua historia em poucas palavras. "Dei cabeçada, não era para fugir". Para a polícia, esse foi um caso inusitado. "Nunca vi alguém se arrepender assim. Agora pelo menos terá comida e lugar para dormir", afirmou Duarte.

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