Folia nos clubes desaparece e resta apenas saudosismo

Poucos espaços têm festas para sócios; Juventus, um dos resistentes, promove 4 noites

Renato Machado - O Estado de S. Paulo,

09 Fevereiro 2010 | 08h53

 

SÃO PAULO - Todos os anos, as músicas que eles cantavam eram Mamãe, eu quero e Doutor, eu não me engano. Mas longe de se cansar da repetição, os amantes do carnaval de salão sentem falta da época em que jogavam confetes e serpentinas para o alto e dançavam sem ritmo, simplesmente pulando. O tempo e o axé mudaram os padrões de carnaval, jovens passaram a não achar divertido curtir a folia com os familiares e, atualmente, uns poucos clubes da cidade de São Paulo insistem em realizar suas próprias festas.

Veja também:

linkAcompanhe a cobertura da folia pelo País no blog Carnaval 2010

"Os bailes de antigamente eram bons porque você ia com a família. Para você ter uma ideia, era liberado o uso de lança-perfume, mas a gente ficava jogando na nuca das meninas", lembra o aposentado Alaor Ferraz Filho, de 61 anos, frequentador por 30 anos do antigo baile do Clube de Regatas Tietê. O primeiro foi aos 3 anos, acompanhado dos pais. "Eu peguei desde a fase das fantasias de pirata até paquera nas matinês."

Ferraz também marcou época no carnaval do Tietê, porque fazia parte dos Aqualoucos, grupo que esperava pelo fim das matinês para levar os participantes para a piscina onde, vestidos de palhaço, pulavam dos trampolins. "Era divertido, mas a malícia foi chegando depois. Lembro quando faziam corredor polonês para dar tapa na perna das meninas."

O Tietê foi beneficiado porque os desfiles de carnaval ocorriam na Avenida Tiradentes, nos anos 1980; a concentração era na frente do clube. "Mas o público foi diminuindo e com isso os eventos passaram a dar prejuízo", diz o gerente administrativo do clube, Wagner Carniato, que começou trabalhando nas bilheterias, em 1979.

 

OUTROS TEMPOS - Alaor frequentou os bailes do Tietê durante três décadas: primeiro, quando era criança, e até meados dos anos 80

O Sindicato dos Clubes do Estado de São Paulo (Sindi-Clube) estima que menos de 10% dos 250 clubes da capital vão realizar eventos de carnaval - não necessariamente bailes. "Muitos têm as matinês, pedidas pelos pais, que querem ver os filhos fantasiados", diz um dos diretores do sindicato e presidente do Clube Esperia, Armando Perez Maria.

O Esperia montou seu primeiro carnaval no fim dos anos 1930. O último foi há 12 anos. "Os jovens ganharam uma liberdade maior nos últimos anos e hoje já viajam sozinhos no carnaval. O ambiente familiar já não é tão atrativo e, infelizmente, isso é irreversível."

A notícia, no entanto, desagrada até quem gosta de samba na avenida. "Eu já desfilei na Unidos do Peruche, mas sinto falta dos clubes. R$ 500 por uma fantasia é muito. Nos clubes você ia do jeito que queria", diz a aposentada Elisa de Paula, de 85 anos, que passou mais de sete décadas de carnaval nos clubes.

CONFIRMADO

Na contramão do pessimismo, o Juventus é um dos únicos que insistem em organizar carnaval de salão. As festas começaram num barracão na Rua Javari, na Mooca, nos anos 1930. Neste ano, serão quatro noites de festa. O ingresso mais caro custa R$ 20. "Nosso carnaval já não dá lucro, mas não dá prejuízo. E, enquanto os sócios pedirem, vamos dar continuidade", diz o presidente, Antonio Ruiz Gonzales.

Mais conteúdo sobre:
Carnaval 2010bailes

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.