''Foi onde nasceram os 1ºs conjuntos musicais''

Arnaldo Baptista, mutante e ex-morador da Pompeia

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

Ele também é "filho da Pompeia". Arnaldo Dias Baptista, de 62 anos, ficou famoso por ser o cérebro, nos anos 1960, da banda Os Mutantes, que tinha Sérgio Dias, seu irmão, e Rita Lee, sua primeira mulher.

Baptista sairia da banda em 1973, após várias brigas internas e o fim do romance com Rita. Em 1978, nasceu seu único filho, Daniel - fruto do segundo casamento do cantor, com a atriz Martha Mellinger.

O paulistano, no entanto, não está mais em São Paulo. Na recuperação após uma fase ruim - que incluiu internação na ala psiquiátrica do Hospital do Servidor Público, tentativa de suicídio e quatro meses em coma com uma fratura no crânio -, conheceu sua atual mulher, Lucinha Barbosa. Em 1985, ela o levou para viver em seu sítio, em Juiz de Fora (MG).

Vinte e cinco anos depois, tem saudades de São Paulo?

Não totalmente. A cidade passou a ser urbana demais para mim.

Como passou a sua infância na Pompeia?

Eu não era muito "rueiro", de ficar brincando de corre-corre na rua, jogando pedra, essas coisas. Eu não era tão moleque. Gostava de brincar em casa, de Banco Imobiliário, por exemplo. Mas tinha um respeito pela vida no sentido de pegar mais cultura. Minha mãe (Clarisse Leite Dias Baptista, morta em 2003) era concertista e então eu ficava em casa estudando piano e violão. Papai (o jornalista César Dias Baptista) também era cantor e poeta. Então eu fui entrando nessa das artes, fui me formando criança assim.

Viveu muito tempo no bairro?

Sim. Foi lá que nasceram os primeiros conjuntos (musicais). E mesmo Os Mutantes. A Rita Lee morava na Vila Mariana (na zona sul) e eu na Pompeia. Eu ia visitá-la e a gente se dava bem. Foi uma coisa bacana.

Que locais você frequentava, em São Paulo, que contribuíram para sua formação cultural?

Papai era da política (foi secretário de Adhemar de Barros), então a gente tinha um camarote no Teatro Municipal. De vez em quando eu ia lá e ficava assistindo a óperas e mil coisas nesse sentido. Era gostoso fazer esse tipo de coisa. Minha mãe era concertista e também atuava lá, e eu gostava de acompanhar. Um lado musical meu, ligado à opera, nesse sentido, se desenvolveu com a minha mãe. Isso tem uma importância para mim na formação da cultura. Um lance ao qual eu não pertencia totalmente, porque meu negócio era mais rock-and-roll. Mas eu ia levando nesse sentido.

Que outras lembranças você tem da cidade?

Eu me divertia muito empinando aeromodelos no Parque do Ibirapuera, eu fazia essas coisas. Depois passei a gostar bastante de motocicletas, já aos 18 anos. Tive um monte de motocicletas, cinco de uma só vez. Eu ia estudando mecânica para deixá-las envenenadas. Nessa época eu aprendia inglês e alemão, muito mal.

Onde você estudou?

Estudava no Caetano de Campos (na Praça da República, onde hoje está a Secretaria Estadual da Educação). Gozado, papai fez até o quarto ano lá. A gente compactuou isso. Estudei lá até o fim do ginásio, depois fiz o clássico no Mackenzie. Paradoxal isso, eu estava estudando para me preparar para ser advogado. Não sei se seria um bom advogado, o homem não é perfeito, errar é humano... E nessa época eu comecei a ganhar dinheiro com a música, e abandonei os estudos.

Além da Pompeia, onde mais você morou em São Paulo?

Mais tarde, com a mãe do meu filho, eu vivi na Vila Mariana. Isso foi depois dos Mutantes. O problema é que sempre reclamavam do barulho, porque eu tocava em casa e meu som era muito alto. Houve uma época em que morei em Pinheiros (zona oeste), em um apartamento. Eu ligava as coisas para começar a tocar e, dez minutos depois, o porteiro já interfonava dizendo que estavam reclamando, que o barulho era infernal. Então eu me mudei para a Cantareira (zona norte). Mas só depois que vim para o sítio (em Juiz de Fora) é que acabaram meus problemas todos com a acústica.

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